Reflexões da Sagrada Escritura: Possessão Diabólica

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“Não deis lugar ao demônio” (Efésios IV, 27).

“Sede, pois, sujeitos a Deus e resisti ao demônio, e ele fugirá de vós” (S. Tiago IV, 7)

Considerando que há muita desinformação atinente a este assunto tão angustiante, e isto até por parte de alguns exorcistas, achei por bem, visando a maior glória de Deus e o bem das almas, expô-lo aqui.

Caríssimos e amados leitores, em primeiro lugar serão de enorme utilidade algumas noções preliminares.

É certo que o demônio pode, por permissão de Deus, exercer influência e dirigir ataques contra o homem, produzindo nos sentidos externos ou internos, operações e impressões, anômalas, dolorosas e/ou aflitivas. Radicalmente perverso e maligno, lança mão de quanto possa contrariar a glória de Deus e a felicidade do homem.

Jesus Cristo diz que o demônio é invejoso e homicida deste o início da humanidade. Realmente com o pecado original dos nossos primeiros pais, o inimigo das almas passou a ter um grande império e a exercer uma acerba tirania. Mas com a vinda de Jesus Cristo que venceu este príncipe do mundo, do orgulho, da avareza e da impureza, o domínio do demônio diminuiu muito e visa muito mais atormentar as almas antes do que os corpos, acorrentando-as (quando elas se afastam de Jesus) com as cadeias do pecado. Quem não está com Jesus, estará com o demônio, como afirmou o divino Mestre: “Quem não está comigo, está contra mim” (Mat. XII, 30). Este ataque do demônio às almas, é feito ordinariamente através das tentações de que já falamos em outro artigo. O ódio insaciável que o Maligno tem à humanidade leva-o também a lançar mão de todos os meios e, se lhe for dado, descarregar também sobre o corpo os mais pesados golpes. São os ataques extraordinários: possessão e obsessão.

O maior mal que pode acontecer a uma pessoa é ter sua alma possuída pelo demônio por meio do pecado mortal. De Judas Iscariotes Nosso Senhor Jesus Cristo disse que ele não estava limpo porque estava com o demônio. É infinitamente pior do que a possessão porque esta atinge o corpo, e, só indiretamente, às vezes, atinge a alma. Mas como a habitação da alma pelo demônio é algo invisível, são poucas as pessoas que se preocupam em sair deste estado o mais lastimável possível.

Falemos, então, da possessão propriamente dita. “Dois elementos – diz o Padre Tanquerey – constituem a possessão: a presença do demônio no corpo do possesso, e o império que ele exerce sobre esse corpo, e, por intermédio dele, sobre a alma. É este último ponto que nos cumpre explicar. O demônio não está unido ao corpo como a alma o está; não é com relação à alma senão um motor externo, e, se influi sobre ela, é por intermédio do corpo em que habita. Pode atuar diretamente sobre os membros do corpo e fazer-lhes executar toda a sorte de movimentos; indiretamente influi sobre as faculdades, na medida em que estas dependem do corpo para as suas operações”. E continua o grande teólogo Padre Tanquerey: “Podem-se distinguir nos possessos dois estados distintos: o estado de crise e o estado de sossego. A crise é como uma espécie de acesso violento, em que o demônio manifesta o seu império tirânico, imprimindo ao corpo uma agitação febril que se traduz por contorções, explosões de raiva, palavras ímpias e blasfemas. Os pacientes parece que perdem então todo o sentimento do que neles se passa, e, voltando a si mesmos, não conservam lembrança alguma do que disseram ou fizeram, ou antes do que o demônio fez por eles. Só ao princípio é que sentem a irrupção do demônio; depois, parece que perdem a consciência de tudo isso”.(…) “Nos intervalos de repouso, nada vem revelar a presença do espírito maligno: dir-se-ia que se retirou”. [E aí alguns exorcistas se enganam].

Como dizia o afamado exorcista, o Padre Gabriele Amorth, recentemente falecido: o demônio, às vezes, demora muito tempo para sair de um possesso.

Se, por um lado, muitos exorcistas menos avisados ou nímia e apressadamente crédulos, fazem em vão o exorcismo, quando deveriam encaminhar o paciente ao médico; por outro lado, às vezes, manifesta-se a presença do demônio por uma espécie de enfermidade crônica que desconcerta todos os recursos da medicina. O Exorcista prudente, quando subsiste alguma dúvida, deve enviar logo o paciente aos médicos. Daí, caríssimos leitores, será de suma importância conhecer os sinais certos da possessão diabólica. Um médico católico praticante, por outro lado, como tenho a dita de conhecer alguns, pode fazer um bem imenso as almas. Quando fui Capelão de Hospitais, médicos católicos, procuravam-me e diziam: Padre, V. Rev.ma pode atender tal paciente, porque não é caso para nós. E realmente não o era! E assim, pela graça de Deus, pude ajudar muitas almas e, talvez muitas vidas.

Segundo o Ritual Romano Tradicional (De exorcizandis obsessis a daemonio), há três sinais principais que podem dar a conhecer a possessão: Primeiro: “ignota lingua loqui pluribus verbis vel loquentem intelligere”, isto é, “falar uma língua desconhecida, fazendo uso de muitas palavras dessa língua, ou compreender quem a fala”. Vede, caríssimos como o Ritual Tradicional é judicioso: “fazendo uso de muitas palavras dessa língua”. (Certa vez, um falso exorcista fez um exorcismo de uma sua criada, e querendo ela demonstrar que estava possessa, falou algumas poucas palavras em grego e hebraico, só com um detalhe, que ela as havia ouvido de seu amo. É preciso que todos saibam também que muitos pretensos exorcistas usam o hipnotismo de palco e enganam até multidões). Mas passemos ao segundo sinal: “distantia, et occulta patefacere” “descobrir coisas remotas e ocultas”. Por prudência, o exorcista deve hoje em dia, sobretudo por causa da Internet, procurar indagar se a pessoa não soube através da mídia (pode o sujeito dizer: em tal dia e em tal lugar haverá uma grande tempestade); e, em se tratando de predição do futuro, é prudente esperar se realmente vai realizar, e não se deve dar crédito com facilidade. Também o Exorcista não deve deixar se enganar por predições vagas. Hoje podemos dizer que este segundo sinal só oferece segurança juntamente com os outros dois sinais. Terceiro sinal: “vires supra aetatis seu conditiones naturam ostendere” “dar mostra de energias que ultrapassam as forças naturais da idade ou da condição”. É evidente que se reunirem estes três sinais é quase certo que se trate de possessão. O Ritual Romano Tradicional, faz 21 observações antes das Orações do Exorcismo. Vou apenas resumir as principais: a que fala sobre os sinais de possessão já acabamos de mostrar. O Exorcista deve estar atento para descobrir possíveis artimanhas empregadas pelo demônio para se ocultar e não acontecer o Exorcismo, como p. ex. fazendo o possesso dormir, ou, então, deixando no momento o possesso em tranquilidade, fingindo não estar nele. Às vezes, também o demônio finge que já saiu e o exorcista, se não for prudente, cai na cilada. Outra coisa importante é o Exorcista está bem lembrado do que Jesus Cristo disse: “Há uma casta de demônios que só se expulsa pela oração e pelo jejum”. O Exorcista, a exemplo do que fez Jesus Cristo, pode perguntar o número de demônios, seu nome e procurar saber por quanto tempo o possesso sofre nas garras do demônio. O Exorcista deve fazer o Exorcismo e ler com império e autoridade, com grande fé, humildade e fervor. Deve empregar palavras das Sagradas Escrituras e não próprias ou alheias. Deve obrigar o demônio a dizer se traz naquele corpo por magia signos ou instrumentos maléficos; e se os engoliu, obrigá-lo a vomitá-los. Também deve obrigar o diabo a revelar se existem tais coisas fora do corpo. Sendo encontrados, tudo deve ser recolhido e queimado. Deve, outrossim, admoestar o possesso a relatar ao Exorcista as tentações que sofre da parte do demônio. Finalmente, caso tenha certeza que o demônio foi expulso, o Exorcista deve admoestar o paciente que tenha todo o cuidado para evitar o pecado e não dar assim lugar ao demônio que volte, porque neste caso o estado do possesso ficaria bem mais crítico do que o anterior.

Gostaria ainda de fazer uma outra observação: o demônio pode querer mascarar a possessão aproveitando de certa loucura ou problemas de nervo. Uma vez levaram até ao Santo Cura d’Ars uma mulher furiosa e que se contorcia toda. E perguntaram ao santo o que ele achava. Ele disse: “É um pouco de loucura, um pouco de nervo e um pouco de “grapin” (=diabo).

Além dos sinais indicados no Ritual Romano Tradicional, a experiência nos ensina muita coisa! Um padre contou-me certa vez, que ao fazer um exorcismo, tirou do bolso da batina o vidrinho de água benta e aspergiu o possesso, que riu escarninhamente; o padre achou estranho e procurou indagar se realmente aquela água tinha sido benta com os exorcismos, e verificou com certeza que não. Aí pegou água benta de fato e lançou no possesso e este ficou furioso e se contorcia. Os Exorcistas devem ter cuidado porque o demônio pode também querer ridicularizar as coisas sagradas e zombar do próprio exorcista e enganar os fiéis. Que faz o pai da mentira? Tenta alguém a dissimular que está possesso. Seria uma tentação do demônio, fazendo a pessoa pensar que seria uma maneira de resolver algum problema. E, então, o exorcista fica fazendo papel de palhaço e, pior ainda, usando inutilmente as coisas sagradas, e o que é mais grave, há padres que usam até a Hóstia Consagrada.

Caríssimos, se às vezes se enganaram alguns Exorcistas, é porque se haviam afastado das regras traçadas pelo Ritual Tradicional. Para evitar esses erros, é oportuno fazer examinar o caso não somente por sacerdotes mas também por médicos católicos e de preferência, médicos especialistas em síndromes nervosas.

Indico sempre três grandes remédios contra a possessão: 1 – Purificação da alma com uma boa confissão, e de preferência, uma confissão geral. 2 – Usar a água benta, mas ter o cuidado de usar a água benta com o Ritual Romano Tradicional, que já inclui vários exorcismos. 3 – Ter o crucifixo em casa, e melhor ainda trazê-lo sempre consigo. Trazer consigo a Medalha Milagrosa, a medalha de São Miguel Arcanjo e também a do Anjo da Guarda.

Para terminar, quero lembrar o frase de Santo Agostinho: “O demônio é um cão amarrado e só morde em quem dele se aproxima”. Daí dizer São Paulo: “Não deis lugar ao demônio”.

Padre Élcio Murucci.

Fonte: Fratres in Unum.

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