Livro: Os Demônios

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A editora 34 lançou no Brasil, em 2004, com tradução de Paulo Bezerra direta do russo, o monumental romance do escritor Fiódor Dostoievski, Os Demônios.

Com acabamento razoável e tradução clara e acessível o livro veio somar ao cenário literário nacional às edições mais antigas e de outras editoras, sendo uma opção viável e, dentro da realidade brasileira, razoavelmente em conta. Além da Editora ter conseguido espaço nas prateleiras de praticamente todas as redes de grandes livrarias do Brasil.

Quanto ao romance ele se passa por volta de 1870 na Rússia Imperial, ou seja, período final do Czarismo e anterior a sangrenta e bestial revolução bolchevista de outubro de 1917. Nesse período histórico russo riquíssimo de referências literárias podemos destacar, além do próprio Dostoievski, Leon Tólstoi, dentre outros, que estão hoje no panteão dos grandes escritores de todos os tempos da humanidade.

Fiodor Dostoievski
Fiodor Dostoiévski: Um dos maiores autores da humanidade.

A genialidade de Dostoiévski consiste, precisamente, em retratar de maneira viva e realista o cotidiano da sociedade e do tempo em que viveu, com todas as suas cores mais brilhantes e mais sombrias. Devido a sua capacidade de cronista inimitável, ele foi capaz de captar os nuances da sua sociedade em detalhes impressionantes, tanto nos costumes e crenças, quanto nos pensamentos e atitudes das pessoas, montando dessa maneira um intrincado, porém fascinante, mosaico da vida russa e de todos os tempos, pois as suas histórias eram, e ainda são, atuais e profundas.

A trama gira em torno de uma série de homicídios e de um incêndio criminoso praticados em uma pequena e pacata cidade do interior da Rússia por um grupo revolucionário socialista. A inspiração da trama são fatos reais acontecidos à época. Os personagens principais são um “filósofo” e “escritor” medíocre chamado Stiepan Trofimovich, o seu filho, o revolucionário socialista Piotr Stiepanovich e o aristocrático filho de uma viúva de General, o cínico e maldoso Nikolai Stavroguin. Todos eles membros de uma sociedade secreta, baseada na Suíça, que tinha por objetivo a revolução mundial por meio da destruição da sociedade ocidental conservadora cristã. Nas palavras de um membro do grupo, preso depois dos crimes, perante a polícia, os objetivos deles eram:

 “…para provocar um abalo sistemático da sociedade e de todos os seus princípios; para deixar todo o mundo em desalento e transformar tudo em uma barafunda e, uma vez assim abalada a sociedade, esmorecida e doente, cínica e descrente, mas com uma sede infinita de alguma ideia diretora de autopreservação, tomar tudo de repente em suas mãos, erguendo a bandeira da rebelião …”

Com base nessa diabólica premissa os acontecimentos se desenrolam como uma montanha russa, ora lenta e detalhista ao extremo, ora em velocidade atordoante, como bem sabia fazer o escritor, sem deixar de enriquecer cada personagem da trama, todos baseados em personagens reais da época, com os seus pensamentos, sensações e impressões, que fazem o leitor entrar na mente de cada um deles.

Narrando os episódios em primeira pessoa, o que difere dos outros romances mais conhecidos do autor, Os Irmãos Karamazov e Crime e Castigo, a ação toma um prisma mais intimista e pessoal, sendo a leitura ainda mais envolvente, mesmo na descrição das ações e crimes terríveis que os personagens praticam, especialmente os de Piotr Stiepanovich e de Nikolai Stavroguin.

Como está escrito com todas as letras na contracapa do livro, ele tem caráter profético, pois os pensadores e pensamentos dos personagens, ainda no início da segunda metade do século XIX, são extremamente atuais e de fundamental importância para se entender pensadores e escolas de pensamento posteriores, como Nietzsche e Bakunin e o Niilismo anarquista, que desaguaram nos modernos grupos terroristas “Black Blocs” e “Anonimus” por exemplo. Além de explicar claramente os fundamentos de vários tiranos psicopatas genocidas socialistas do passado e do presente, como Hitler, Stalin, Lenin, Fidel Castro, Ho Chi Minh, Pol Pot, Mao Tsé-Tung dentre tantos outros. Um dos livros citados pelos personagens de Os Demônios como sendo de grande influência sobre eles era o livro de um revolucionário russo chamado “O que fazer?”, livro esse de cabeceira e inspiração máxima de Vladmir Lenin, que organizou e perpetrou a revolução socialista na Rússia, que vitimou milhões de pessoas, destruiu o Império e espalhou morte e destruição no mundo até hoje.

Quanto aos comentários de Paulo Bezerra ao final do livro ele, até pela formação que recebeu na União Soviética nos anos sessenta, busca justificar as ações bestiais dos personagens socialistas do livro e dos seus Alter egos na história citados acima, separando o mundo das ideias, no caso as ideias socialistas de igualdade, das ações bestiais praticadas por eles em quantidade nunca antes vista e imaginada na humanidade. Um dos personagens do livro cita textualmente que um dos objetivos deles era “cortar cem milhões de cabeças”, número profético e alcançado pelo socialismo no século XX e provado como fato histórico por uma comissão de historiadores e publicado na obra “O livro negro do Comunismo”. Esse argumento, sempre repetido pelos esquerdistas de hoje e de ontem, que os crimes praticados pelo sistema comunista/socialista são uma deturpação pessoal dos ideais é tão absurdo e fora da realidade que beira o cinismo. É claro que o problema das sociedades regidas por socialistas são as suas ideias e a ideologia que instrumentaliza todo o tecido social, fazendo com que a tentativa terrena de busca do paraíso utópico se transforme em uma máquina genocida de produção de inferno terreno. O sistema que eles sempre procuraram criar e jogar as pessoas dentro é a realidade que vemos hoje em Cuba, Coréia do Norte, China, Vietnã, dentre outros, basta ler o que um dos personagens, Piotr Stiepanovich, diz (lembremos que o livro foi publicado em 1870):

“… Ele inventou a “igualdade”! No esquema dele cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado a delatar. Cada um pertence a todos, e todos a cada um. Todos são escravos e iguais na escravidão. Nos casos extremos recorre-se a calúnia e ao assassinato, mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e dos talentos. O nível das ciências e das aptidões só é acessível aos talentos superiores, e os talentos superiores são dispensáveis! (…) eles serão expulsos ou executados. A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, um Shakespeare mata-se a pedradas(…). Ah, ah, ah, está achando estranho? Sou a favor (…)!”

Percebe-se o quão atuais são essas palavras e o quanto é fora de propósito afirmar que há uma distância entre as ideias e a realidade que elas produziram no mundo. O que esses monstros praticaram e praticam são exatamente o que os seus antecessores infernais pregavam e escreviam. Só não vê claramente isso quem é cego ou não quer ver.

Quanto ao título, Dostoiévski fez referência direta aos socialistas revolucionários do seu tempo e de todos os tempos, que no começo e no fim das contas, foram, são e serão sempre, demônios.

Olavo Mendonça.

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