A saga dos 5.56 – Precisamos parar de ser enganados

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ÁGUA NA BOCA! ATÉ QUANDO?

Um recente artigo do estudioso policial e instrutor Dave Spalding acabou me deixando com água na boca – de novo. Ele, majestosamente, declarou sem meias palavras o quanto está fácil mobiliar um “556” nos EUA. A expressão que ele usou foi: “’E como ver uma menininha trocar as roupas de sua boneca Barbie”. Ou seja: as opções são quase que ilimitadas.

Sua tranquilidade verbal, ao mesmo tempo em que mostrava a evolução dos acessórios em armas policiais, indicava preços acessíveis e até comparava a troca da Calibre 12 – por sua limitação de alcance – por um armamento que chegava mais longe com sua efetividade, obviamente mantendo o agressor proporcionalmente mais distante do ataque ao policial e ao cidadão.

Não pensem que a água na boca vem por conta da facilidade de acesso a algo que, para nós, é quase impossível. Essa sensação tem uma ligação(antes que inventem alguma desculpa) com a qualidade da resposta policial frente aos diversos tipos de situações de risco enfrentadas e, pior, ao resultado proposto quando se usa uma arma de fogo: neutralizar a ação do agressor de forma efetiva. Ou você usaria para outra coisa? Pois tem gente que sim!

 O USO DA CARABINA

Tenho visto muitos colegas utilizarem a carabina 5.56 como uma arma principal (e às vezes única) para quaisquer situações policiais urbanas. Isso me incomoda. Este tipo de armamento, correta e comumente, deve ser empregado quando se sabe qual a ameaça de que tratamos e que aquele é o tipo de resposta que se ajusta à agressão. A cultura dos parcos equipamentos e da falta de escolha para fazer cessar um crime está sendo, erradamente, transportada para a 5.56. Isso é algo muito perigoso. Que sejam excluídos desse comportamento os que, obviamente, estão em conflitos mais frequentes e constantes.

É necessário mencionar que armas de fogo, quando única alternativa disponível a policiais, os faz utilizá-las para solucionar quase tudo. Desde sair do viatura com ela para dar uma demonstração de força que o Estado não consegue lhes conferir, até sacá-la como uma forma de convencimento para conflitos diversos, em que sua integridade física pode estar em risco. Chamamos isso de redução positiva de capacidade de resistência. Isso ocorre quanto propositalmente nos valemos do poder de polícia e da força que o Estado nos confere para cercear um possível comportamento antissocial e não legal, com a finalidade positiva de forçar o cidadão a cumprir um ato de submissão.

Portanto, daquele comportamento do profissional envolvido no evento,  vem a famosa frase, que tem como uma das fontes o conhecimento das pessoas sobre a falta de possibilidade de usar aquela ferramenta: ”Atira…”, “ Quero ver você puxar o gatilho”… “Atira se for homem/mulher…”. Bom, nem preciso mencionar as consequências advindas desse encontro de incoerências.

m4
Carabina M4 556

O cidadão precisa ser nosso parceiro nisso, meus caros amigos. Enquanto o nosso cliente não souber que armas de má qualidade, treinamento mambembe e capacitação para inglês ver são os maiores vilões contra ele e contra quem o protege, a coisa vai continuar tipo água de xuxu: o legume pode até existir, mas só presta se colocar alguma coisa junto. Fora isso, não alimenta e nem tem gosto de nada.

 COMO PENSAM AQUELES QUE PAGAM O SEU SALÁRIO?

Quantos dos nossos clientes sabem que você treina, mal e porcamente, uma vez por ano? Se, e somente se, isso ocorrer, o que é muito mais comum. Quantos sabem que a munição que lhe é entregue durante um treinamento não lhe permite tornar-se mais hábil no manuseio de sua arma? Porque, lembrem-se: essa é a finalidade do treinamento. Melhorar competências (conhecer, ser capaz, ter aptidão) e habilidades (saber fazer) é o que importa.

Quantos gestores de segurança, decisores e influenciadores externos (Deputados, Governadores, vereadores, jornalistas, especialistas) compreendem que um treinamento com estresse não se faz apenas com tiro em alvos estáticos? Quantos sabem que, invariavelmente, não possuímos alvos tridimensionais ne dinâmicos? Você possui treinamento virtual em sua instituição? Quantos dos mesmos que citei têm em mente que atirar em alvos com características mais próximas do corpo humano não tem nada a ver com criar matadores, mas sim com a melhoria da percepção e capacidade de correta decisão permitindo, consequentemente, evitar tiros em pessoas inocentes? E segue relação.

Falando, de novo (chato , né? Obrigado!), da parte dos acessórios, lembremos que ainda há os ogros do treinamento que se limitam a tratar de alça e massa como a única forma de buscar o acerto no alvo. Gente… PELAMORDEDEUS… Confrontos armados urbanos, usando arma loga, sem lanternas dedicadas (acopladas ao armamento), sem uma empunhadura vertical frontal, sem bandoleiras profissionais que substituam as “alças de bolsa” improvisadas  e sem miras eletrônicas adicionais já é uma aberração. Foi-se a época em que isso era exclusivo de grupos de operações especiais. Estamos falando de acessórios para salvar vidas e para reduzir colegas nossos que perdem o emprego e viram piada de jornalistas inescrupulosos.

Deixar de prover ao profissional de segurança o que ele deve usar para minimizar riscos a quem não está envolvido no confronto é fazer uma epopeia à irresponsabilidade. É obrigatório que gestores, em que pese a burocracia na confecção de projetos, busquem trazer esses instrumentos para a sua orquestra de segurança.

Ilustrando: recentemente participei de uma demonstração de uma empresa nacional que entrega esse tipo de armamento para forças policiais e para as forças armadas. Quando questionei a ausência de uma coronha telescópica obtive a quase descarada resposta que tinha o seguinte teor: ”Coronel, nossa coronha telescópica foi reprovada no teste de queda. Aí a gente só tem esse modelo. Mas eu acho que não faz tanta diferença assim, não!”. Eu ri. Juntamente com todos os demais participantes que estavam naquele evento.  Mas ri para não chorar. A resposta foi quase um desrespeito.

 QUASE UM DESRESPEITO: E AÍ CAZUZA?

Com todo o cuidado que meu cérebro me permite ter e a fidalguia que as empresas nacionais merecem, eu digo em alto e bom som: MUDEM RAPIDAMENTE SEU RESPEITO COM PROFISSIONAIS DE SEGURANÇA! AS SUAS DESCULPAS ESTÃO MUITO ESFARRAPADAS. JÁ É HORA DE PARAR DE SUBESTIMAR A INTELIGÊNCIA DAS PESSOAS. Isso, no mínimo, pois quando um policial se depara com uma arma em que você precisa do martelo do Thor para mudar o seletor de tiro, a coisa vai para o campo da vileza. Por que aquela pecinha nunca funciona como deve? O mínimo que se pede é respeito às famílias de quem os protege. Será que é tão difícil perceber que o armamento que se usa pode e também vai ser utilizado para proteger A SUA FAMÍLIA, mais cedo ou mais tarde?

Existem, no entanto, empresas nacionais sérias, indústrias respeitáveis e muita gente competente. Esperemos que essas indústrias tragam também, além de plataformas de armas credíveis, acessórios que melhorem a qualidade da proteção destinada a todos. Quem sabe surge a idéia, depois deste artigo, de uma exclusão de impostos para produtos voltados à segurança? Por que não alterar o desembaraço de acessórios e ferramentas que estejam diretamente ligadas ao combate dos crimes violentos letais intencionais? Qual o motivo de ninguém se movimentar para baixar as taxas que fazem com que nossa munição seja tão cara, quase inviabilizando o treinamento?

O cidadão ainda não sabe que muito do que ocorre de inadequado, quando do uso da força, não tem a ver com o policial, o qual aparece até como primeira vítima da omissão na socialização das informações. Cuspir balas tem que ser diferente de neutralizar um agressor que esteja com uma arma de fogo. Isso só se faz com equipamento confiável e de qualidade, capacitação dentro da realidade da violência do país e muito treinamento e desenvolvimento. Milagre e malabarismo, para quem lida com segurança pública, só em filme.

O falecido cantor Cazuza perguntou, em uma parte da letra de música imortalizada por ele e pela excelente voz de Gal Costa, que queria ver quem pagava para a gente ficar assim. Será que ele falava das Polícias?

E que todos nos lembremos: DA MESMA FORMA QUE VENTO QUE VENTA LÁ, VENTA CÁ,TIRO QUE MATA LÁ, MATA CÁ.

Leonardo Sant’Anna.

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