Escravos da Meiocridade

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Nobres sentimentos devem vir acompanhados de atitudes que os revelem ou então não passarão de estéreis sensações, que podem causar desde um extremo sofrimento ao prazer da iluminação, sem entretanto causar nenhum efeito externo ao portador das emoções.

Emoções que, segundo os mais céticos, não passariam de reações químicas, interações entre neurônios e absorção de certos neurotransmissores por determinadas células em regiões específicas do cérebro. Mas a redução das emoções a um esquema mecânico de reações bioquímicas , além de ser muito sem graça, tira de nos o componente mais interessante do ser humano, a alma. Pois o que seria do espírito humano sem uma alma, sem a contemplação da eternidade.

Se de tudo que vivemos existe uma esperança, um sentido maior, ela está para além desta existência para além do comum. Cada gesto sem sentido do cotidiano, cada fila de banco, cada parafuso, fralda, troca de saco de lixo ou engarrafamento que degola nossas horas e parece sem sentido, apenas o olhar para além da realidade mesquinha do dia-a-dia parece socorrer o homem de uma existência ordinária.

Com uma sociedade focada no consumo, na tecnologia, na velocidade, no ter, uma busca desenfreada ofusca os olhos dos homens a sua verdadeira natureza. Entorpecido por milhares de distrações, na era do entretenimento e do conforto. Entorpecido por todo tipo de droga, desde as mais antigas, como álcool, as mais modernas, como o prozac, o homem vive isolado dos próprios sentimentos. A realidade é que quando nos encontramos com nossas emoções não sabemos como lidar com elas, corremos para nossos pajés modernos ( psicólogos, psiquiatras e afins) e suplicamos por mais porções milagrosas, que desvie olhar de nossa alma.

Gostaríamos de resolver nossos problemas na velocidade de um videogame, de um computador, é só desligar e ligar de novo, reinicia o sistema e tudo está resolvido. Mas, infelizmente, nossa mente não funciona assim. A mente humana é uma caixa de Pandora personalizada, exclusiva para cada proprietário.

Tudo pode se complicar muito mais quando estamos em um relacionamento aí, além dos nossos sentimentos, precisamos administrar as fragilidades, pensamentos e emoções de outra pessoa. E quanto mais estamos envolvidos, pior a coisa fica. Pior não é bem a palavra, talvez a palavra seja, complicado. O envolvimento romântico e diretamente proporcional a complicação do relacionamento. Dá até para fazer uma fórmula.

Principalmente porque nosso estágio cultural atual o relacionamento romântico é uma das últimas formas de expressão de sentimento desinteressado, não egoísta, altruísta disponível ao cidadão médio. Uma vez que a maioria das formas de caridade e as instituições religiosas sofrem pesado bombardeio da mídia, gozando de pouco prestígio entre população, e seus membros, de forma geral, são considerados massa de manobra, otários, ingênuos ou recebem adjetivos semelhantes.

O descompasso num relacionamento dessa natureza pode jogar os participantes dele em um estado de frustração extrema. O investimento emocional que muitas vezes é feito neste tipo de relação gera entre seus participantes um sentimento de cumplicidade que, quando rompido, gera uma sensação de perda, muito semelhante a morte de um ente querido, um luto. Emoção gerando ação. Tristeza em movimento, decepção profunda.

O problema é que sem uma base moral sólida para se apoiar, para construir seu relacionamento, as pessoas acabam trazendo os valores que já praticam em suas vidas. Ou seja, o individualismo, consumismo e o prazer pessoal em primeiro lugar , prática comum atualmente, e os sentimentos altruístas que as pessoas possuem genuinamente, não podem ser traduzidos em atitudes equivalentes, por absoluta falta de ferramentas para tal.
Mesmo quando as pessoas possuem uma bagagem de valores morais, éticos, filosóficos e religiosos para construir um relacionamento, onde cada um vê o interesse do outro em primeiro lugar, o relacionamento interpessoal exige um esforço grande para dar certo. Como pode dar certo em uma relação egoísta?

Claro que, mesmo com toda a sintonia, a crise entrará pela porta da frente, sem pedir licença. Nestes momentos será preciso por em prática os princípios sobre os quais o relacionamento foi construído e entender o fundamento do sentido das coisas, que nada tem sentido em si mesmo. Ou seja, a vida só tem sentido para além dela. E a coerência com nossos princípios deve ser entendido nessa dimensão.

Seja para uma atividade de filantropia ou para uma conquista romântica os sentimentos precisam deixar o peito para gerar uma ação concreta. Mas acima de tudo, para vencermos essa geração corrupta precisamos manter os olhos além do cotidiano, é primordial que nossa atenção esteja voltada para além dessa realidade mesquinha e pequena. Em nosso horizonte a eternidade precisa estar vislumbrada ou seremos prisioneiros da mediocridade.

Luiz Fernando Ramos Aguiar

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