A mãe de todas as confusões e turbas

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O Movimento pelo “Passe Livre” ou a “Revolução dos Vinte Centavos” (junho de 2013 no Brasil) abriu uma espécie de “Caixa de Pandora”, envolvendo demonstrações, multidões, turbas e distúrbios civis. A imprensa internacional já refere uma “Primavera Brasileira”, comparando, de alguma forma, a situação política do Brasil atual com a dos países islâmicos da África e do Oriente Médio (Egito, Tunísia, Líbia, Iêmen e Síria) desde 2011 até os dias correntes.

As instituições incumbidas da manutenção da ordem pública no Brasil são as polícias militares. Elas ainda estão ascendendo em uma espécie de “curva de aprendizagem” sobre como lidar com multidões, apenas parcialmente constituídas por cidadãos reivindicando aspirações legítimas. Essas multidões escondem, muitas vezes ingenuamente para a maioria das pessoas, oportunidades para facções que representam interesses político-ideológicos voltados para o poder. Ainda que as forças policiais do país estejam bem afeitas a distúrbios e respectivo controle deles, as polícias não estão ainda igualmente preparadas (igual que as polícias do restante do mundo…) para lidar com distúrbios politicamente motivados e conduzidos, servindo de pretexto e exploração para uma verdadeira escalada de crime e violência com fins políticos não-declarados. Essas multidões e distúrbios por elas motivados criaram uma problemática bastante nova e complexa para a manutenção da ordem pública no Brasil de 2014 (mormente com a proximidade da Copa do Mundo de Futebol). A diferença fundamental entre essas novas multidões e os distúrbios e multidões do passado é que as atuais possuem objetivos políticos não-declarados e de longo prazo, ao invés de reivindicações legítimas, declaradas e de curto prazo de satisfação, caso de melhorias salariais, passagens menos caras, melhores condições de trabalho, disponibilidade de serviços de saúde de boa qualidade, etc.

É bem conhecido o fato de que grandes multidões produzindo distúrbios podem ser direcionadas e controladas por um pequeno número de indivíduos que, eventualmente, sequer aparecem nas ruas ou noticiários factuais. Essas lideranças são capazes de “energizar” e direcionar multidões inteiras, utilizando como motivação a indignação coletiva acerca de questões altamente controvertidas e polarizadoras da opinião pública, capazes de colocá-las contra o poder público e os agentes da lei e da ordem (caso das polícias militares do Brasil). Um exemplo bastante contemporâneo é a crise continuada por que passa o Egito desde 2011, tendo como protagonistas grupos ideologicamente antagônicos, identificados com o islamismo e com a política secular, tudo culminando com violentos e recorrentes enfrentamentos de rua.

Existem diferentes teorias explicativas da maneira como as multidões podem ser manipuladas. A “psicologia das multidões” é uma delas, estabelecendo diferenças significativas entre o “comportamento coletivo” das multidões e o comportamento individual das pessoas que fazem parte delas. Nesse sentido, o “sentimento coletivo” emerge como algo dramaticamente diferenciado da consciência individual. Correspondentemente, na medida em que uma espécie de “frenesi coletivo” é insuflado e aumenta, os participantes de uma multidão passam a demonstrar comportamentos de alto risco (como nos acontecimento da Central do Brasil no Rio de Janeiro em fevereiro de 2014, resultando na morte de Santiago Andrade), e que não seriam expostos sob a censura e controle da consciência individual normal. Esse tipo de raciocínio é o mesmo que se aplica ao comportamento de cardumes de peixes, rebanhos ou manadas de animais, explicando comportamentos desviantes em demonstrações violentas de rua, agressões e mortes em jogos de futebol e diversas outras expressões da “violência das turbas”. Um distúrbio civil, tipicamente, resulta do comportamento de uma turba desorganizada, sem liderança, bem como sem estrutura hierárquica entre seus membros. Mas nem por isso os distúrbios deixam de poder ser incitados por líderes/ativistas políticos… Ainda que a Revolução Francesa (1789) e a Revolução Russa (1917) contenham episódios de distúrbios civis, eles sozinhos não dão conta das profundas mudanças subsequentes na estrutura política e na própria história dos dois países. Ou seja, multidões e distúrbios não são, necessariamente, entidades inteligentes, mas sim e primordialmente, coisas aparentemente amorfas, mas significativamente instrumentais de uma eventual manipulação político-ideológica refletida, estruturada e propositalmente operacionalizada..

Enfim, os sentimentos da massa de indivíduos que compõem uma multidão e o eventual distúrbio consequente podem não expressar tão somente reivindicações legitimas. Muito mais frequentemente do que pode parecer, sentimentos coletivos legítimos poder ser instrumentais da ação política e de empoderamento de líderes ou grupos políticos capazes de manipular ativamente a ocorrência de distúrbios e formação de multidões e turbas. A análise dos acontecimentos havidos em Washington em 1999, com a clássica “Batalha de Seattle” acontecida no transcurso da reunião da Organização Mundial de Comércio nos EUA, dá conta do quanto de organização e preparação pode se esconder por detrás da suposta “baderna aleatória” que um grande distúrbio civil encerra…

George Felipe de Lima Dantas.

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