Mais Policiais. Pra quê?

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Em coluna publicada na última terça-feira (04), no espaço “Nossa Opinião”, o autor trata do tema de aumento de efetivo no município de Marília, SP, motivado por iniciativa do Ministério Público estadual, que, em tese, seria suficiente para garantir melhorias na segurança pública local (para ver o artigo, clique aqui).

Esclareço que não sei o que a Instituição responderá ou se, mesmo, tomou conhecimento do artigo. Escrevo em minha condição de especialista no tema da segurança e, neste sentido, tenho a obrigação de levar mais algumas informações ao leitor que complementem o informado no artigo.

No estado paulista, temos 03 segmentos na segurança pública: a Polícia Militar (a quem cabe fazer o policiamento que vemos nas ruas, imediatamente reconhecido pelo uso de fardamento e viaturas, realizando a prevenção e a intervenção imediata em relação aos delitos) a Polícia Civil (registros das ocorrências e apuração para que sejam encaminhadas provas e informações ao poder judiciário, conforme o caso) e a Polícia Científica (que estuda os locais, atores e objetos utilizados em um delito, realizando perícias e emitindo laudos afins). Obviamente que suas atuações são muito mais amplas, o que me impede de as esmiuçarmos neste artigo.

Estruturas estaduais, efetivos imensos, correspondendo a cerca de 138 mil colaboradores no total. Portanto, cerca de 138 mil salários a serem pagos, treinamentos, recursos materiais e intelectuais, enfim, todo um aparato que dê suporte para que possam realizar suas atividades. Tudo isto monitorado por diversas outras instituições (Corregedorias, Ouvidorias, Ministério Público, Tribunais etc), bem como pelos fiscalizadores da sociedade civil (imprensa, cidadãos interessados, observadores de universidades e segmentos especializados etc).

Recursos parcos: só no caso da Polícia Militar, por exemplo, são cerca de R$ 12.000,00, em média, gastos mensalmente por profissional – não só salários, mas com tudo que os subsidia (combustíveis, sistemas de coleta, armazenamento e transmissão de dados, uniformes, aquisição e reparo de equipamentos e viaturas, deslocamentos etc). Mais: por um serviço disponível 24horas, todos os dias do ano. Em todos os 645 municípios do estado e protegendo mais de 42 milhões de habitantes naturais e 3 milhões de imigrantes de 70 etnias diferentes. Perguntemos, pois, a um empresário como fazer toda esta estrutura funcionar somente com estes recursos e, certamente, teremos uma só resposta.

Pois bem: de onde saem tais recursos? Do nosso bolso, cidadão de bem. Lembremos que, infelizmente, não são 42 ou 45 milhões (se somados os imigrantes) de contribuintes: imenso contingente não contribui em nada ou quase nada – basta-nos diferenciar o lojista, que paga seus impostos devidos, mesmo que repassados ao consumidor final, do vendedor do mercado informal que alimenta uma ciranda, inclusive, de subemprego de imigrantes na ilegalidade.

A impossibilidade de divulgação de números de Policiais locais, pontuais, não se dá em razão de estratégia de combate ao crime: se assim se desse, se fosse de conhecimento amplo quantos Policiais e onde estão neste exato momento, a malandragem, os vagabundos e os infratores da lei se concentrariam, por lógica, nos locais em que os agentes da segurança não estivessem – nem que fossem um Policial por habitante, não haveria como estarem, todos, em todos os lugares. Daí o emprego da técnica, da metodologia do policiamento inteligente, que emprega o mínimo de recursos cirurgicamente, nos locais onde, realmente, há necessidade de emprego. Daí a importância de fazermos o registro das ocorrências delituosas junto às autoridades: se eles não tomarem conhecimento de onde e qual o tipo de delito acontece, como poderão adivinhar onde empregar melhor quais recursos e de forma mais econômica, sem perder a qualidade dos serviços?

Citado o número de 250 policiais por habitante, esclareço que não há um número padronizado universalmente, tanto que o autor não citou a fonte deste parâmetro. Em verdade, cada localidade, cada sociedade, tem uma forma de vida, condições sócioeconômicas, locais de recreação, proximidades com os vizinhos, nível de moradores desempregados, enfim, características que diferem de quarteirão para quarteirão: quiçá entre cidades, estados e nações…

A alegação de que basta uma ronda a mais ou a pergunta acerca da sensação de segurança de quem já foi vítima de um delito: por óbvio que, se foi vítima, se sentiu invadida – a sensação de ter seu lar, seu patrimônio, destruído ou subtraído é, sim, terrível em impotência. Vejamos o outro lado: imaginemos uma cidade com viaturas por todos os lados, monitorada por helicópteros e câmeras amplamente distribuídas – além de termos os “policiólogos” de plantão, pessoas que se julgam profundamente conhecedoras da arte policial e que aprendem por livros, relatórios impressos e em salas de aula, levantando-se contra um estado opressor, aí, sim, teríamos a citada sensação de insegurança – um estado policial, que se sobreponha a uma saudável vida social que preza pela liberdade, tão sonhada e conquistada pelos nossos antecessores brasileiros.

Os números cresceram, de população e de veículos? Obviamente que sim. Para isto existe a tecnologia e sua evolução: basta-nos comparar os números existentes de funcionários que nos atendiam nas décadas de 1970 e 1980 e os de hoje nas agências bancárias, de correios, nas lojas de departamentos. Mesmo de outros segmentos do comércio: há, aqueles, que simplesmente nem existem no mundo real, que não possuem sequer mais de um funcionário (que é, simplesmente, o proprietário) – portanto, nem empregos geram.

Gestores de excelência deram espaço aos recursos tecnológicos de modo que houvesse melhoria na qualidade do atendimento com redução ou, mesmo, extinção de rotinas desnecessárias, aliadas à economia, a gastar menos. Por que não fazer isto, também, na máquina pública, de modo a reduzir gastos e, consequentemente, evitar-se o aumento de impostos? Ora, reduzi-los é inviável: a mantença ou elevação se faz necessária em razão do citado aumento de população.

Questões suscitadas como a do envolvimento de drogas e viciados, a existência de presídios na região, a liberação da população prisional em razão de benefícios legais a cada data especial são temas em nada afins à Polícia: a esta e seus atores cabem os efeitos, não as causas e as melhores práticas e gestão – uma cobrança feita ao bode-expiatório que, por questões de respeito, disciplina e responsabilidade, segue calado no cumprimento de suas missões.

Mais Policiais, viaturas, treinamento, atuação comunitária e envolvimento nos bairros e identificação com os moradores é bom? Claro. No entanto, não necessariamente sempre é bom: há que se ter equilíbrio entre serviços prestados, qualidade e menor gastos públicos – o que só se consegue com bons administradores e colaboradores, com valorização dos profissionais, com sensação de que valha a pena fazer parte da Corporação, orgulho, mesmo, enfim, com excelência de gestão.

Quem não gosta de PM é bandido? Nem sempre: há também os que vivem da bagunça, que ganham dinheiro com a desordem, que vivem da polêmica e, a estes que também não gostam da Polícia, a bagunça se faz conveniente. Há aqueles, ainda, que na passividade da preguiça do pensar, do refletir, engolem discursos demagógicos daqueles a quem esta conveniência da desestruturação da sociedade, da desordem, engorda os bolsos e permite uma vida estoica, de prazer: infelizmente internalizam informações e críticas infundadas, feitas no calor de um ou outro evento pontual, colocando por terra a imagem e a credibilidade de um Estado que atende, só no caso da Polícia Militar paulista, quase 40 milhões (isto mesmo: milhões) de ocorrências por ano e cuja existência começou, ainda, no governo imperial de Dom Pedro I (1831) – uma estrutura secular que se impõe em fortes fundações que, se não mantidas, porá por terra muitos dos princípios que norteiam uma terra e um povo que queira se fazer parte da história. Que as mídias e aqueles a quem a bagunça social lhes seja conveniente pinçam uma ou outra ocorrência e as explora até a última gota, exaustivamente, mantendo-nos desinformados do bom atendimento realizados em quase 40 milhões de vezes ao ano, este é um expediente, uma forma bastante conhecida de longa data. Quase 110 mil atendimentos, ações de socorro dos Policiais Militares, de nos proteger, em um único dia. Isto sem nos atermos, em razão da temática, aos mecanismos de saneamento internos, que retiram da Instituição os que se provam desviantes (o que significa que ela, séria, apura e corta na carne) e daqueles que, simplesmente por terem abraçado a profissão e a crença de que vale a pena proteger vidas, podem morrer (morrer!), como os mais de 170 Policiais Militares que, em média, deixam definitivamente suas Famílias. Perdem um pai ou um filho. E que, ao invés de serem alçados ao nível de respeito, de exemplos a serem seguidos por nós, sociedade, são ignorados em seus amparos, velórios e enterros por esta mesma sociedade e seus representantes.

Há muito a melhorar? Certamente que sim. Talvez mais flexibilidade dos gestores locais e regionais em movimentar seus recursos, concentrando nos locais que mais careçam destes recursos. Talvez mais integração, principalmente entre os bancos de dados, informações e recursos. Talvez tudo isto e mais. No entanto, talvez – por uma simples razão: só o gestor sabe quais os recursos são necessários ou que possam ser disponibilizados, quem pode ajudar, em qual período, onde emprega-los pontualmente, como e com quais custos. Portanto, ao invés de achismos, de “policiólogos”, ouçamos os gestores de carreira policial, bem qualificados, com colaboradores idem: estes, sim, devem ser escutados e atendidos. Apoiados. Sabem as realidades locais, sabem as peculiaridades regionais, de qual perspectiva observar a dinâmica criminal. Sabem onde o crime pode acontecer, onde podem economizar e aonde isto pode ir. Só precisam de nossa confiança e auxílio.

Há como fazermos mais e melhor? A começar por um tratamento distinto de nossa parte junto à esta classe de profissionais, da Segurança Pública: não vemos a imprensa malhando diariamente os profissionais dos campos da medicina, da publicidade e propaganda, da nutrição e da farmácia: não à toa, são as carreiras mais procuradas pelos nossos jovens nos vestibulares deste ano. Quem gostaria de trabalhar ou de ver seus filhos atuarem em uma profissão da qual só se fala mal, que ganha pouco em relação ao risco que corre, que todo mundo mete o bedelho, que está (ao invés da submissão à boa técnica e boa gestão) à mercê das vontades e gostos políticos que mudam de hora em hora, de minuto em minuto, para agradar quem vota – caso contrário, não consegue convencer os eleitores. Se não mudarmos, se não valorizarmos o planejamento – garantindo sua plena execução -, confiarmos em quem atua, contratarmos profissionais diferenciados, continuarmos a tomar de 7 a 1 dos alemães. E isto não é metáfora: é o resultado do que se colheremos caso tenhamos falta de competitividade por medo da opinião pública e de planejamento bem elaborado e executado em plenitude.

Como exigir mais Policiais nas ruas? Não queremos aumentar impostos. Não queremos investir em melhores salários para os gestores públicos – o que potencialmente atrairia profissionais ainda mais qualificados para a boa gestão do que se arrecada. Compramos do mercado informal, vamos ao camelô, não pedimos nota, damos assistência indistintamente pública a todos, mesmo que em nada contribuam. De forma geral, alguns contribuem, todos usufruem. Mas ninguém pergunta a quem paga se está satisfeito com o que vê – sem voz está, hoje e cada vez menos, o cidadão contribuinte.

Policiais Militares, mais que sobrecarregados com o excesso de trabalho, estão sendo massacrados e maculados em sua imagem, violados, estereotipados como bandidos e patetas por veículos de comunicação e opinião pública induzida que, desconhecedores e formadores de opinião, não possuem conhecimento especializado acerca do tema, acabam por inverter os valores que, ao invés de colaborar para uma sociedade mais educada, mais organizada, ordeira, justa e cidadã, que tenha as pessoas com seus, no mínimo, direitos à uma vida plena e de qualidade, de liberdade, de dignidade humana, acaba atrás das grades de seus lares, longe dos passeios públicos noturnos com seus filhos e tendo como único recurso de distração o acesso ao que a TV, a mídia virtual e a impressa jogam para dentro de nossas casas: o medo. Medo, muitas vezes, infundado pelo exagero de uma só notícia negativa que fica, repetidamente, martelando nossos olhos e mentes a todo o tempo, em todos os meios. Medo que vende e dá lucro a uma parcela da sociedade, menos em uma relação ganha-ganha, mais em uma relação ganha (para esta parcela nociva) – perde (nós, a sociedade).

Chegado é o momento da volta a um jornalismo mais informativo, que nos traga as versões de todas as partes envolvidas. Mais neutro, sem âncoras, cumpridor de sua função social: a de informar.

Querer mais efetivo? Mais colaboradores? A nós, contribuintes, fica a reflexão.

Marcos Boldrin, mestre e especialista em segurança pública.

http://marcosboldrin.com.br

Fonte da foto: Blog da Renata.

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