Por que odiamos o policiamento a pé?

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Não existe lugar no mundo onde o policiamento a pé não seja empregado, contudo no Brasil os policiais tem uma enorme resistência a prática desta modalidade de policiamento, mesmo que os estudos mais sérios provém sua eficiência. Nossos policiais, em uma grande parte, gostariam de ser lobos solitários, de sair pelas ruas sem destino combatendo o crime onde e quando tivessem vontade (Confesso que trabalhar assim é muito legal!). Mas para que se possa obter resultados concretos e duradouros no combate a criminalidade é fundamental trabalhar com estratégia, coordenação e aplicação dos efetivos de formas variadas e de acordo com a necessidade de cada região. E estas decisões, na grande maioria das vezes, não cabem aos patrulheiros, mas aos comandantes das corporações policiais.No livro Nova Polícia, Bayley e Skolnick fazem um estudo comparativo acurado entre vários departamentos de polícia nos Estados Unidos e diversas técnicas e métodos empregados para melhorar a segurança nas cidades. A leitura vale a pena, além de revelar um dos poucos estudos sérios no campo da segurança pública, confronta  os profissionais da área com seus principais dogmas no que se refere ao trabalho policial. E talvez o principal deles seja o do Rádio Patrulhamento Motorizado como a grande panaceia policial. Bayley e Skolnick demonstram que o patrulhamento a pé além de produzir um melhor efeito sobre a criminalidade, no local onde é aplicado, melhora a imagem e o relacionamento das corporações com a comunidade.

Ao enfrentarmos estes dogmas precisamos ainda entender outro aspecto da administração, veja bem, não disse administração policial, ou militar, mas administração. Existem funções que são incompatíveis e o exercício simultâneo delas pode colocar toda uma estratégia a perder, é o caso das funções de planejamento estratégico e da execução operacional. Na atividade policial gostamos do comandante “faca entre os dentes”  que está na rua com a tropa. Contudo, quando se trata do planejamento estratégico, ou mesmo tático, o ideal é que os gestores (comandantes) estejam em uma posição mais afastada, em condições de observar o conjunto das atividades e tomar decisões mais apropriadas para corrigir o rumo das operações.

O que ocorre é que gostamos de sufocar nossos gestores na confusão operacional. Ao invés de delegar a função aos gerentes apropriados, que já estão estabelecidos, principalmente dentro da hierarquia das polícias militares, nos deleitamos com “generais de rua”. E muito de nossos gestores de segurança pública acabam sufocados em demandas específicas operacionais e deixam de zelar pela execução dos planejamentos macro, que resultarão em verdadeira mudança para a população prioritariamente e, ao final, à tropa.

Ao mesmo tempo tenho observado um fenômeno inverso entre os policiais mais novos, a grande maioria com curso superior completo e alguns até com pós-graduação. Com base em uma formação acadêmica pregressa os novos policiais sentem que a atividade operacional não é para eles. Muitos destes policiais, nas universidades, foram preparados para carreiras de gestão e ao ingressarem na polícia tiveram que se deparar com a realidade de exercer uma atividade essencialmente operacional, “chão de fábrica”, principalmente no início da carreira. Afinal, precisamos de policiais nas ruas para patrulhamento, barreiras, controle de distúrbios civis, ou seja, servir e proteger.

Mesmo com toda a formação  acadêmica, comum aos novos policiais, a sociedade precisa deles nas ruas, como gostamos de dizer na caserna: tomando sol na moleira. Grande parte da atividade policial é, e continuará a ser, física, com o indivíduo exposto, na rua em contato com a comunidade e deslocando-se por áreas pré-determinadas,  confiando que existe um motivo para que policiamento seja necessário naquele local e naquela hora. Mesmo que todas as evidências digam o contrário, o patrulheiro, policial operacional, não tem visão do todo, não detém a estratégia e, neste sentido, precisa fazer que foi determinado e isso é ser profissional. E precisamos compreender essa realidade.

Se por um lado o policiamento a pé é renegado e considerado como uma modalidade ultrapassada, ao mesmo tempo se exaltam as maravilhas  e a necessidade da implementação da filosofia da polícia comunitária. Principalmente, porque no policiamento comunitário, se fala em descentralização do comando e gestão local. Contudo, alguns se esquecem que as raízes contemporâneas do policiamento comunitário situam-se na década de 1970 com as modalidades de patrulheiros a pé nas cidades de Flint, Michingan, Newark e New Jersey, nos Estados Unidos, que tinham como objetivo de engajar a comunidade na resolução criativa de conflitos sociais e criminalidade.

As primeiras iniciativas de policiamento comunitário objetivaram: reduzir a tensão a social, criar uma relação de diálogo e interação entre polícia e sociedade com atenção ao pessoal jovem e aos conflitos de raça, etnia e religião; envolvimento da comunidade para iniciativa de prevenção as drogas e os problemas de desordens física e social de modo á promover a melhoria da qualidade de vida da comunidade. (TROJANOWICZ e BUCQUERUX 1999)
O policiamento comunitário é uma grande oportunidade de agregar valor ao serviço policial, uma vez que este deixa de ter um caráter apenas repressivo e punitivo e passa a se tornar parte integrante da vida da comunidade. Nesta filosofia o policial passa intervir diretamente na realidade da comunidade, o problema de iluminação pública, o terreno baldio abandonado, o prédio abandonado utilizado por usuário de drogas, também passam a ser problema de polícia. Neste sentido a atividade operacional se torna mais complexa, o que justifica a busca das corporações por policiais mais qualificados.

Com a implementação da filosofia de polícia comunitária cada policial passa a ser responsável pelas pessoas e  pela região que patrulha. A ideia é que o mesmo policial possa estar no mesmo local pelo maior tempo possível, de forma a desenvolver vínculos com a população local. Assim, muitos dos problemas gerados hoje pela mudança no perfil dos novos policiais talvez sejam amenizados. De qualquer forma, este trabalho não pode ser realizado de dentro de uma viatura policial,  para que exista aproximação com a comunidade o profissional deve estar andando nos bairros, conversando com as pessoas, olhando nos  olhos, demonstrando interesse, muitos chamam de policiamento de proximidade.

Execrar uma modalidade de policiamento apenas porque não gostamos pratica-la revela que ainda precisamos de um amadurecimento profissional, ainda mais quando confrontados com os estudos que comprovam sua eficiência e credibilidade junto a comunidade. Se queremos ser respeitados como técnicos precisamos encarar de forma profissional o exercício da nossa profissão e executar procedimentos e métodos que se revelem mais eficazes de acordo com a necessidade do público que será atendido afinal:

“O policiamento comunitário enfatiza a necessidade da Polícia estar mais consciente em relação ao seu papel de prestadora de serviços. Os cidadãos da comunidade e as empresas desta são os que, através do pagamento de impostos, estão financiando ou custeando os serviços da polícia. É justamente por isto que cada um dos policiais deve ter bem presente na sua mente que o seu emprego existe apenas porque se supõe que ele esteja prestando um serviço público, um serviço que faz parte de todo um contexto de segurança e de bem-estar social para toda a coletividade. Todos os programas da instituição policial devem ser avaliados para medir o grau de satisfação do público com os serviços que a polícia está prestando.” (O POLICIAMENTO A PÉ EM ÁREAS COMERCIAIS COMO ESTRATÉGIA DA POLÍCIA COMUNITÁRIA NA CIDADE DE BELO HORIZONTE. Molise Zimmermann Fonseca)

Precisamos aliar gestores que estejam preocupados em atingir os objetivos macros, redução dos índices criminais, metas de policiais nas ruas e de viaturas rodando, ou seja, objetivo globais. Com gerentes intermediários que coloquem em prática as políticas estratégicas e façam seus gerentes operacionais fiscalizarem seus agentes operacionais, os quais devem receber responsabilidades e tarefas especificas. Parece a lógica, mas nos dias de hoje falar o óbvio é ser como João Batista, uma voz que clama no deserto.

Por: Luiz Fernando Ramos Aguiar

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