Tatuagens de prisão

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Uma análise estatística da arte sobre os corpos dos condenados: O que pode ser aprendido com as tatuagens de um prisioneiro

             Em meados da década de 1990, um homem chamado Frank, recentemente libertado da prisão, foi procurado por Gregory Boyle, um padre jesuíta em Los Angeles. Frank estava tendo dificuldade em encontrar um emprego, em parte devido ao seu passado cheio de quadros. Provavelmente não estava ajudando que ele tivesse as palavras “FODA-SE O MUNDO” tatuadas em sua testa.

            O padre Boyle contratou Frank para trabalhar em uma padaria que tinha montado para fornecer empregos a pessoas que tentavam se aprumar. Ele também encontrou um médico para ajudar a remover seu ato de rebelião niilista de seu rosto. A padaria foi o primeiro negócio no que é agora a “Homeboy Industries”, uma organização sem fins lucrativos que desde então cresceu para ser o maior centro de reabilitação de gangues da América, oferecendo emprego e outros serviços a centenas de ex-membros de gangues. Seu serviço gratuito de remoção de tatuagens alavancou organização à fama.

            Esses programas estão se espalhando por toda a América. A meia milha do “Homeboy”, nas instalações correcionais “Twin Towers”, uma prisão do condado de Los Angeles, os reclusos com bom comportamento são elegíveis para terem suas tatuagens removidas gratuitamente enquanto ainda presos. O processo é doloroso – um ex-condenado descreve-o como sendo atingido por um elástico que está em chamas – e pode levar várias sessões se estendendo ao longo de meses. Mas muitos decidem que mudar as mensagens pessoais ainda públicas escritas em sua pele faz valer a pena enfrentar a dor.

            Falar com os prisioneiros revela que às vezes é o pessoal que mais importa. Quando perguntado o que de repente o estimulou a querer apagar o nome de uma ex-namorada, Edward Marron, na “Twin Towers”, respondeu de forma natural que a mãe de seu bebê não gostava. Em seu braço esquerdo, o nome de outra ex-namorada é quase, mas não totalmente obscurecido por uma tatuagem de uma árvore. Alguns apenas ressentem o artesanato de má qualidade de sua tatuagem feita na prisão – um preso quer ter sua tatuagem de Pittsburgh Steelers removida, assim ela poderia ser redesenhada por um profissional.

            No entanto, a remoção de uma tatuagem pode ser um esforço mais significativo: apagar uma tatuagem pode mudar como os outros veem você. Quando esses outros são juízes ou potenciais empregadores, isso pode ser bom; quando eles são companheiros de gangues, pode ser arriscado. Talvez o mais importante, remover suas tatuagens também pode mudar como você se vê.

 A estatística do aspecto pessoal

             Os indivíduos escolhem escrever coisas em seus corpos – ou apagá-las – por causa do que essa tatuagem específica significa para eles. Mas a prevalência da tatuagem na população carcerária dos Estados Unidos significa que, em princípio, deveria ser possível formular regras gerais sobre o que as pessoas dizem em seus corpos, também – para adicionar um significado estatístico, ou simplesmente gráfico, à biografia da tatuagem. O “The Economist” decidiu investigar quais as inferências sobre uma vida de crime que poderiam ser possíveis de tirar a partir de diferentes tipos e números de tatuagens.

            As páginas na internet de muitas prisões estaduais apresentam bancos de dados públicos ​​de seus detentos, possíveis de serem pesquisados abertamente. Os dados geralmente incluem seus nomes, altura, peso, dados demográficos, histórias criminais e, às vezes, se eles têm ou não marcas distintivas, incluindo tatuagens. O mais impressionante destes, para nossos propósitos, era aquele do departamento de correções de Florida (FDOC): uma base de dados acessível que caracteriza registros para todos os 100.000 presos atualmente alocados no sistema de prisão do estado da Flórida. Ela fornece uma grande quantidade de detalhes sobre suas marcas, bem como suas etnias, idades e crimes cometidos. Com algumas linhas de código é possível descobrir quais tatuagens um detento Florida particular tem, e onde em seu corpo estão localizadas.

            A coisa mais óbvia que esses dados mostram é apenas como as tatuagens são comuns. Nossas tabulações dos dados mostram que três quartos da população prisional da Flórida têm, pelo menos, uma tatuagem; em média, um interno tem três. Os dados também confirmam como as tatuagens criminosas são aspectos de uma geração: 85% dos prisioneiros com menos de 35 anos têm tatuagens, em comparação com 43% para os presos com 55 anos ou mais. No público em geral a taxa é de 23%. A maioria dessas tatuagens não têm nenhuma associação explícita com o mundo criminoso. Os desenhos e motivos mais populares incluem nomes, animais, criaturas míticas (dragões e unicórnios são especialmente comuns) e símbolos cristãos, como cruzes, rosário e pergaminhos com versos bíblicos.

            A base de dados mostra relativamente poucos detentos com tatuagens explicitamente criminosas. Por exemplo, 15% dos detentos brancos tinham tatuagens de coração, enquanto apenas 3% tinham tatuagens relacionadas ao movimento da supremacia branca. Algumas tatuagens refletem remorso: pelo menos 117 detentos têm tatuagens com variações da frase “Minha mãe tentou”. Trinta e um internos da Flórida parecem ser grandes fãs do grupo de hip-hop NWA, ostentando tatuagens com a inscrição “Fuck the police”. Algumas tatuagens são bem-humoradas: pelo menos sete reclusos têm as palavras “Seu nome” tatuado em seus pênis.

            Grupos demográficos diferentes optam por tatuagens muito diferentes. Sem surpresa, os detentos brancos são mais propensos a apresentar imagens associadas com o movimento de supremacia branca: suásticas, cruzes de ferro e similares. Os internos hispânicos, muitas vezes criados em famílias católicas, favorecem a imagem cristã: a Virgem Maria é um assunto comum. Os prisioneiros negros preferem palavras, por exemplo, “Precious”, e muitas vezes carregam slogans relativos à vida de gangues. As mulheres detentas são mais propensas a levar tatuagens de borboletas, corações e o lembrete de que “Isso também vai passar”. Os detentos do sexo masculino são mais propensos a ter tatuagens de imagens diretamente relacionadas ao encarceramento, como grades de prisão e torres de guarda.

            Se a etnia e sexo das pessoas determina suas tatuagens, o mesmo pode ser dito de seus tipos de crime? Usando dados do FDOC, o “The Economist” construiu uma série de modelos estatísticos para prever a probabilidade de crimes específicos cometidos por criminosos com base em seus traços demográficos e escolhas de tatuagens.

            Nossa análise concluiu que presos condenados por crimes contra a propriedade e de posse de armas têm mais tatuagens, enquanto os infratores sexuais, particularmente aqueles condenados por pedofilia, tendem a ter o menor número. Os internos com pelo menos uma tatuagem eram, na verdade, 9% menos propensos a terem sido encarcerados por assassinato do que aqueles sem tatuagens. O efeito é ainda mais pronunciado para aqueles com tatuagens na cabeça ou no rosto, que têm cerca de 30% menos probabilidade de serem assassinos. Associações semelhantes podem ser encontradas para perpetradores de crimes domésticos. Esses relacionamentos mantêm-se mesmo depois de considerar fatores como idade, raça e sexo.

            Alguns motivos específicos da prisão também são mais comuns entre os prisioneiros menos violentos. Estes incluem tatuagens de relógios sem ponteiros, paredes de prisão e teias de aranha, tudo refletindo o tédio de encarceramento, e uma tatuagem popular retratando as máscaras dramáticas de comédia e tragédia, juntamente com o slogan “Ria agora, chore mais tarde”. Tais tatuagens estão mais associadas com crimes mais leves, mas não associadas com homicídio.

            Os prisioneiros com tatuagens cristãs – isto é, aqueles com imagens ou passagens bíblicas – parecem ser um pouco mais virtuosos. Eles são 10% menos propensos a serem assassinos do que aqueles sem (este resultado se mantém independentemente de qualquer diferença nos tipos de crimes cometidos entre hispânicos e outros prisioneiros). Mas, embora os piedosos possam ser um pouco mais bondosos, os diabólicos não são obviamente mais maus; tatuagens com pentagramas ou imagens de Satanás estão estatisticamente ligadas a tendências homicidas.

            Kevin Waters, um criminologista na Universidade do Norte de Michigan e ex-agente da “Drug Enforcement Administration” (a agência federal estadunidense voltada para o combate a narcóticos), observa que a compreensão sobre quais tatuagens são puramente estéticas e quais são sinais pode ser de muita ajuda para a aplicação da lei, distinguindo verdadeiramente criminosos verdadeiros de exibicionistas – membros de gangues não aceitam muito bem que estranhos adotem suas imagens. O que tatuagens mais associadas a criminalidade podem nos dizer sobre um detento?

            Uma tatuagem comum na prisão da Flórida, predominantemente vista em hispânicos, apresenta três pontos entre o polegar e o dedo indicador. A tatuagem é abreviação de “mi vida loca” – minha vida louca -, e seus usuários são 45% mais propensos a terem sido presos por assassinato.

            Os membros do Latin Kings, a maior quadrilha da Flórida, muitas vezes usam tatuagens de uma coroa de cinco pontas ou as letras “ALKN”, que significa “Nação Todo-Poderoso do Rei Latino”. Nossa análise mostra que detentos com tal tatuagem são especialmente perigosos, com 89% sendo possíveis assassinos.

 A verdade em preto e cinza

           Imagens de cunho nazista são as características mais evidente das gangues brancas na prisão, mas eles também favorecem imagens classicamente europeias que vão do folheado quádruplo ao Valknut, um símbolo viking compreendido de três triângulos conectados. Talvez por causa da sua ubiqüidade, as imagens de supremacia branca não são tão ligadas a detentos com acusações de assassinato como algumas outras tatuagens – ainda assim, nós achamos que detentos portadores de tais símbolos eram 19% mais propensos a serem assassinos.

            Saber do que se trata o registro na pele de seu companheiro de cela é sem dúvida uma habilidade útil para aqueles do lado de dentro da cadeia. Os formuladores de políticas, entretanto, podem se importar mais com o que as tatuagens dizem sobre o futuro do que o que elas revelam sobre o passado. Quase metade dos presos libertados das prisões federais e colocados sob supervisão, e três quartos das prisões estaduais, retornam às prisões no prazo de cinco anos. Os dados demográficos servem como dados depressivamente eficazes da reincidência. Em nível federal, oito anos após a liberação, os homens são 43% mais prováveis ​​de retornarem do que mulheres; afro-americanos representam 42% de reincidência do que os brancos, e os que abandonam o ensino médio são três vezes mais prováveis ​​de serem presos novamente do que os de nível superior.

            Como as tatuagens entram nessa história? Em um estudo publicado em 2013, Waters, juntamente com seus colegas William Bales e Thomas Blomberg, analisaram a relação entre a reincidência e a presença de tatuagens em prisioneiros da Flórida. Eles descobriram que, depois de controlar por demografia e crimes cometidos, os detentos com tatuagens tinham 42% mais chances de serem re-encarcerados por cometer um crime violento. Um estudo subseqüente de Kaitlyn Harger, da Florida Gulf Coast University, descobriu que após a liberação, ex-detentos com tatuagens ficavam apenas 2,4 anos fora da prisão antes de voltarem, em comparação com 5,8 anos para aqueles sem. Isso foi especialmente observado naqueles detentos com tatuagens nas mãos e rosto.

            Nossa própria análise dos dados da prisão da Flórida corrobora pesquisas anteriores. Descobrimos que, dos 60.000 réus primários libertados entre 1998 e 2002, 45% voltaram à prisão. Tatuagens predizem a reincidência de forma eficaz: descobrimos que entre os reincidentes, 75% tinham tatuagens. Menos de 30% dos ex-presidiários que conseguiram ficar fora da prisão tinham tatuagens. A “vida louca” parece particularmente difícil de escapar. 81% daqueles registrados com tatuagens dos “Latin Kings” foram novamente presos pelo menos uma vez após sua primeira liberação.

            Por mais imprevisíveis que sejam, seria difícil e provavelmente tolo argumentar que as tatuagens causam a reincidência; muito mais provável que ambas, tatuagens e reincidência, refletem algo mais sobre o caráter do detento e as circunstâncias que o envolvem. Da mesma forma, programas de remoção de tatuagem parecem improváveis, por conta própria, em tornarem um ex-detento em uma pessoa intrinsecamente melhor. Mas podem refletir um investimento genuíno na mudança e podem também ajudar a reduzir a discriminação que egressos do sistema carcerário enfrentam.

            Como as tatuagens são comuns, não ter tatuagem significa cada vez menos. As atitudes em relação às tatuagens são cada vez mais liberais: em um estudo que o Pew Research Center, um centro de estudos, lançou em 2010, 38% dos norte-americanos entre 18 e 29 anos tinham tatuagens, contra 15% entre os que tinham entre 46 e 64 anos. Na verdade, um intrigante exemplo da sua banalidade pode ser visto na influência das quadrilhas californianas sobre a cultura da tatuagem em geral.

            Fazer tatuagens atrás das grades é proibido. Isso não impede que sejam feitas; mas isso significa que os detentos devem ser criativos quando se trata de materiais para sua produção. Uma restrição é a tinta, que muitas vezes tem de ser improvisada a partir de materiais como o polimento de botas ou a fuligem de tecidos queimados – digamos, algodão. Tais fontes limitam artistas a tatuagens monocromáticas.

            Encontrar as ferramentas certas pode ser desafiador também, como fazer manualmente uma tatuagem um ponto de cada vez pode ser tanto laborioso e doloroso. Um avanço veio na década de 1970 quando detidos na Califórnia descobriram como criar motores para aparelhos de tatuagem usando os motores de cassetes. Os novos aparelhos aceleraram o processo de tatuagem por trás das grades, mas apresentavam apenas uma única agulha, o que tornava mais difícil fazer as linhas grossas.

            Tais restrições, juntamente com a sensibilidade estética das gangues das prisões hispânicas, levaram a um novo estilo de tatuagem: a “preto e cinza”. As linhas finas desse estilo e a paleta incolor foram colocadas ao serviço de imagens mais realistas do que aquelas às quais os americanos estavam acostumados. O estilo se espalhou rapidamente para as prisões de outros estados e depois para o mundo exterior.

            Freddy Negrete, um dos pioneiros do estilo preto e cinza quando era presidiário, (e o criador da frase “ria agora, chore mais tarde”), observa que algumas pessoas fazem essas tatuagens para parecer ex-detentos. Mas ele suspeita que os hipsters e celebridades que agora fazem tatuagens nesse mesmo estilo em sua sala no Sunset Boulevard não sabem nada da origem do estilo.

            Nem parece provável, que a maioria deles se sentiria confortável em torno dos membros da gangue dos quais o seu estilo de tatuagem é derivado. Caminhar pelas portas da “Homeboy Industries” é uma experiência chocante para aqueles que não têm experiência anterior de uma vida de crime além da ocasional violação de velocidade: a cena de dezenas de ex-presidiários decorados com imagens de crânios e guerreiros astecas no lobby é  bastante intimidatória. Alguns são cobertos da cabeça aos pés. Muito poucos estão interessados ​​em contato visual.

            Mas andar por essas portas para aconselhamento de emprego, para uma remoção de tatuagem, ou para qualquer tipo de ajuda pode ser igualmente difícil. A equipe, muitos deles ex-presidiários, estão ansiosos para ajudar, mas a vida criminosa não é uma que fomenta a confiança em outros. Muitos ex-presidiários têm orgulho demais para pedir ajuda. Outros estão convencidos de que nunca poderão mudar. Mas para aqueles que podem reunir a coragem, remover as marcas de uma tatuagem de prisão pode ser o último ato de rebelião.

 TRADUÇÃO E ADAPTAÇÃO LIVRE DO TEXTO POR WELLINGTON LANGE “A statistical analysis of the art on convicts’ bodies”, DISPONÍVEL EM <http://www.economist.com/news/christmas-specials/21712032-what-can-be-learned-prisoners-tattoos-statistical-analysis-art?fsrc=scn/fb/te/bl/ed/prisontattoosastatisticalanalysisoftheartonconvictsbodies>. Acesso em 26/12/2016.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Texto relevante e interessante. Muitas vezes as tatuagens feitas nas cadeias brasileiras simbolizam algum tipo de fidelidade a grupos de crime organizado. Esses membros tem difícil reinserção social e frequentemente reincidem no crime.
    Parabéns pelo texto.

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