Traição

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A traição não dói porque se perde algo material, uma posição, um cargo ou qualquer outra coisa. O grande estrago da traição se faz no desmantelamento do mito da amizade, na desconstrução da figura do herói, na quebra dos laços de confiança e principalmente em saber que pessoas que consideramos, além de bens e posses, nos enxergam como peças em um tabuleiro. E só podemos ser traídos por pessoas queridas, pessoas com as quais convivemos, trabalhamos, parafraseando um colega de trabalho: Nunca vi ninguém ser traído pela mulher do vizinho.

A traição se manifesta em diversas formas: em relacionamentos românticos, em acordos comerciais, na política, em grandes transações financeiras, enfim, a lista é infindável. Onde existem pessoas se relacionando de alguma forma sempre se poderá abusar da confiança que o outro depositou. Arrisco a dizer que a traição sexual, movida por impulsos carnais mais básicos, está longe de ser a pior modalidade deste “esporte”. Se formos á bíblia temos: Caim matando Abel por inveja do sacrifício aceito por Deus; Jacó roubando a benção da primogenitura de seu irmão, Esaú, enganando o próprio pai no leito de morte; e a mais vil de todas as traições de que se tem notícia: Judas, o discípulo, se torna Judas, o traidor.

As escrituras sagradas nos mostram uma série de traições com desfechos variados, que vão da transformação de Jacó em Israel ao suicídio de Judas, consequências do arrependimento ou da manutenção do erro e da culpa. Mas o que chama a atenção é que a traição suprema descrita nas escrituras não foi praticada por uma esposa contra um marido, de filho contra um pai ou de um irmão contra outro. Quando a bíblia vem nos mostrar um exemplo de traição para deixar o coração do homem marcado, a ponto de que passados dois mil anos o nome Judas seja sinônimo de traição, mostra-nos um amigo traindo que trai outro amigo.

Os laços de amizade são estranhos, se formam de maneira inesperada, aleatória. Contudo, só se consolidam de forma consciente e voluntária, de ambas as partes. Para que uma amizade se torne forte e sólida é necessário que a confiança e a fidelidade sejam reafirmadas mutuamente, não apenas por palavras, principalmente por ações cotidianas e continuas de forma a construir um relacionamento que, em alguns casos, torna-se mais próximo do que o da própria família.

No caso dos policiais, a confiança nos companheiros de trabalho, torna-se ainda mais dramática devido a natureza peculiar da atividade desenvolvida nas ruas. Afinal, ainda que o seu companheiro de viatura ou de policiamento, não seja seu amigo, mais cedo ou mais tarde, sua vida dependerá de uma ação dele. Qualquer negligência, omissão ou corpo mole pode ser a diferença entre a vida e a morte. Um ambiente de trabalho com tanto estresse acaba favorecendo o desenvolvimento de grandes amizades e a quebra da confiança, principalmente nas atividades profissionais, sejam operacionais ou administrativas, causam uma fratura irreparável entre os profissionais envolvidos.

Imagine, se não se pode confiar no amigo em questões sem de importância relativa, como garantia de funções, escalas, ou coisas do gênero, como confiar a vida nas mãos deste companheiro? Como confiar que ele estará vigiando quando você precisar? Já ouvi de muitos policiais que muito pior que um marginal perigoso é um colega de farda em que não se pode confiar.

Confiar a vida ao companheiro de policiamento é mais um dos desafios diários a que precisa se submeter o profissional de segurança pública para exercer sua profissão. E é por isso mesmo que este exercício profissional não pode ser tratado como mais uma carreira do funcionalismo público. Precisamos resgatar a crença nos valores e princípios sobre os quais se fundamentam o exercício da atividade policial. Os rituais de civismo, de culto a pátria ao bem comum e a justiça não podem ser transformados em mera formalidade administrativa. O juramento prestado no dia em que nos tornamos policiais precisa ter valor real para cada membro da corporação. Contudo, os doutores do desprezo à vida, travestidos de fariseus modernos, empurram goela abaixo dos alunos de cursos de formação por todo o país a virtude do legalismo laico, que produz apenas morte e apatia.

Assim, separados de um sentido para além da mediocridade da materialista, cada vez mais policiais traem seus parceiros de serviço, não por grandes sentimentos de maldade e vilania, mas principalmente por não acreditarem na missão para qual se voluntariaram.

Precisamos de melhores salários, condições de trabalho, legislações adequadas e de toda sorte recursos e tecnologias para prestar um serviço de qualidade. Contudo, divorciados da vocação não passaremos de covardes fardados.

Luiz Fernando Ramos Aguiar

 

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