Um certo capitão Alberto

0

Todo policial militar, ao ser efetivado na corporação, profere um solene juramento semelhante a este: “Ao ingressar na Polícia Militar, prometo regular minha conduta pelos preceitos da moral, cumprir rigorosamente as ordens das autoridades a que estiver subordinado e dedicar-me inteiramente ao serviço policial-militar, à manutenção da ordem pública e à segurança da comunidade, mesmo com o risco da própria vida.” Palavras com esse peso jamais podem ser tomadas de maneira leviana. Afinal, elas contêm a essência da vocação própria do policial militar – bem como o civismo, o culto das tradições históricas, o amor à verdade e a camaradagem. E houve alguém que merece ser lembrado por ter sabido aglutinar todas essas características e cumprir, à custa do próprio sangue, o juramento que proferiu.

monumento a mendes junior
Monumento ao Tenente Alberto Mendes Júnior: Herói que honrou o seu juramento ao Brasil com a própria vida.

As cercanias de Sete Barras, no interior paulista, haviam sido escolhidas, em janeiro de 1970, para o estabelecimento de uma base de operações da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), comandada por Carlos Lamarca, ex-capitão do exército. A VPR era um dos muitos grupos comunistas armados que combatiam o regime militar com a intenção de instalar no Brasil, com apoio e financiamento estrangeiro, uma ditadura nos moldes cubanos. Suas ações criminosas envolviam desde assaltos e seqüestros até assassinatos – que, em alguns casos, eram chamados de “justiçamentos”. Em abril, a área foi descoberta e a polícia militar paulista engajou-se em combate com os guerrilheiros.

Findando o mês, a situação parecia sob controle, mas um pelotão de policiais foi deixado na região. Para comandá-la, voluntariou-se um jovem tenente: Alberto Mendes Júnior. Nascido em 24 de janeiro de 1947, na cidade de São Paulo, filho de Alberto Mendes e Angelina Plácido Mendes. Alistou-se nas fileiras da Polícia Militar do Estado de São Paulo a 15 de fevereiro de 1965, com 18 anos de idade, quando começou a realizar o Curso Preparatório de Formação de Oficiais. Aos 23 anos, já havia alcançado a patente de tenente e sido incorporado ao 1º Batalhão Policial “Tobias de Aguiar”. O tenente Mendes era benquisto por seus companheiros: apelidado de “Português”, costumava ser descrito como um tipo idealista e alegre, cumprindo suas missões sempre de maneira zelosa e altruísta. O tenente se manteve sempre junto de seu pelotão, realizando pequenas buscas pela área à procura de possíveis focos de atividade guerrilheira na região.

Em 8 de maio, os membros da VPR que se esconderam das forças de segurança tentaram fugir da região e, abordados por um grupo de policiais em um posto de gasolina, reagiram a tiros. O incidente ocorreu na cidade de Eldorado Paulista. O tenente Mendes, que estava em Sete Barras, organizou uma patrulha e rumou na direção da cidade vizinha, vindo a interceptar o grupo guerrilheiro – eram liderados pelo próprio Lamarca – por volta das 21 horas. Deu-se um intenso tiroteio no meio da mata, e alguns policiais foram feridos a bala. Os guerrilheiros exigiram que os policiais se rendessem. O tenente Mendes, buscando salvar a vida de seus subordinados, prometeu dar-se como refém ao grupo caso todos os outros fossem libertados. Obtendo permissão para levar os feridos para um lugar onde pudessem receber assistência, levou-os a Sete Barras. Os outros policiais foram mantidos pelos membros da VPR como garantia de retorno do tenente.

Forçado pelos terroristas, Alberto Mendes Júnior desmantelou as barreiras policiais na estrada que levava até Sete Barras, deixando lá os feridos. De madrugada, a pé e sozinho, voltou para onde estavam os membros da VPR, que, então, libertaram o resto do pelotão comandado pelo tenente. Refém dos guerrilheiros, foi por eles levado na direção de Sete Barras, onde se envolveram em outro tiroteio com as forças de segurança. Isso foi visto por Lamarca e seus comparsas como um sinal de que o tenente Mendes não havia cumprido o acordo. O grupo embrenhou-se no mato, afastando-se de Sete Barras.

Na tarde do dia 10 de maio, os guerrilheiros organizaram um “tribunal revolucionário” que decretou ser o tenente Alberto Mendes Júnior culpado de traição. A sentença a ser cumprida seria a morte – neste caso, um “justiçamento”. O líder da VPR, Carlos Lamarca, juntamente com Yoshitame Fujimore e Diógenes Sobrosa de Souza, decidiram que a execução não seria a tiros, como era o costume, porque isso poderia atrair a atenção de patrulhas que pudessem estar na região. Alguma alternativa menos barulhenta deveria ser escolhida. Poucos minutos depois, os três guerrilheiros se aproximaram do tenente Mendes. Fujimore tomou um fuzil e, utilizando a coronha da arma, começou a golpear brutalmente a cabeça do tenente. Após uma série de golpes que lhe racharam o crânio, verificou-se que o tenente gemia e se contorcia. Diógenes tomou a arma de Fujimore e terminou o serviço, esfacelando a cabeça do policial. No meio do mato, abriram uma pequena vala, onde depuseram o corpo do tenente Mendes com os coturnos ao lado de sua cabeça.

Quase quatro meses após seu brutal assassinato, o corpo do tenente Alberto Mendes Júnior foi descoberto graças à orientação de Ariston Oliveira Lucena, um dos membros da VPR que haviam capturado o tenente e que, à época, encontrava-se sob custódia das autoridades. Em 11 de setembro, seu corpo saiu em cortejo fúnebre pelas ruas de São Paulo, indo da Avenida Tiradentes até o Cemitério do Araçá. Representantes das Forças Armadas, o secretário estadual de Segurança Pública, o comandante-geral da PM, além de outros tantos companheiros de corporação, acompanharam o corpo do tenente Mendes até ser enterrado, com honras militares, no Mausoléu da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Recebeu duas promoções post-mortem, ocupando hoje o posto de capitão. No ano de 2008, foi promulgada no estado de São Paulo a Lei nº 13.026, que institui o Dia do Herói Policial Militar, a ser comemorado anualmente no dia 10 de maio – data da execução de Alberto Mendes Júnior.

Hoje, enfraquece lentamente a memória aos verdadeiros heróis nacionais, como o capitão Mendes, ao passo que criminosos não são apenas louvados, mas até mesmo desculpados por seus crimes – Carlos Lamarca, por exemplo, foi anistiado em 2007 e promovido post-mortem ao posto de coronel (mesmo tendo desertado do exército), enquanto Diógenes Sobrosa de Souza, ainda vivo, foi anistiado em 2012, tendo recebido indenização financeira e um pedido formal de desculpas por parte do governo federal. Se temos realmente algum apreço pela verdade, é preciso resgatar a memória daqueles que cumpriram o seu dever de modo irrepreensível, com o sacrifício da própria vida. O capitão Alberto Mendes Júnior não é apenas um exemplo de verdadeiro policial militar, mas de cidadão, de homem cônscio e ciente do dever.

Felipe Melo.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA