“Uma mudança do dogma é impensável”

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O Cardeal Walter Brandmüller tem sido uma das principais vozes críticas às propostas circulantes no Sínodo Extraordinário sobre a Família, que correm o risco de subverter a doutrina católica sobre os Sacramentos e sobre a moral. Ele foi um dos cinco cardeais a contribuir com o livro Remaining in the Truth of Christ [“Permanecer na Verdade de Cristo”], que condenou a proposta do Cardeal Walter Kasper de liberar a Comunhão àqueles que vivem em uniões sexuais irregulares.

Eis a entrevista concedida pelo pelo Cardeal Brandmüller ao Dr. Maike Hickson, do LifeSiteNews.

LifeSiteNews: O senhor poderia apresentar mais uma vez para os nossos leitores, de modo claro, qual o ensinamento da Igreja Católica a respeito do matrimônio e da sua indissolubilidade, como tem sido constantemente ensinado através dos séculos?

Cardeal Brandmüller: A resposta pode ser encontrada no Catecismo da Igreja Católica, dos parágrafos 1638 a 1642.

“Do Matrimônio válido origina-se entre os cônjuges um vínculo que, por sua natureza, é perpétuo e exclusivo; além disso, no matrimônio cristão, os cônjuges são robustecidos e como que consagrados por um sacramento especial aos deveres e à dignidade de seu estado.

O consentimento pelo qual os esposos se entregam e se acolhem mutuamente é selado pelo próprio Deus. De sua aliança se origina também diante da sociedade uma instituição firmada por uma ordenação divina. A aliança dos esposos é integrada na aliança de Deus com os homens: O autêntico amor conugal é assumido no amor divino. 

  1. vínculo matrimonial é, pois, estabelecido pelo próprio Deus, de modo que o casamento realizado e consumado entre batizados jamais pode ser dissolvido.Este vínculo que resulta do ato humano livre dos esposos e da consumação do casamento é uma realidade irrevogável e dá origem a uma aliança garantida pela fidelidade de Deus. Não cabe ao poder da Igreja pronunciar-se contra a disposição da sabedoria divina.

    (…)

LifeSiteNews: A Igreja pode admitir à Sagrada Comunhão casais recasados, mesmo que o seu segundo casamento não seja válido aos olhos da Igreja?

Cardeal Brandmüller: Isso seria possível se esses casais tomassem a decisão de viver no futuro como irmãos. Essa solução é especialmente válida quando o cuidado pelas crianças não permite uma separação. A decisão por tal caminho seria uma expressão convincente de penitência pelo ato passado e prolongado de adultério.

LifeSiteNews: A Igreja pode lidar com o tema do matrimônio de uma maneira pastoral que seja diferente do seu ensino constante? Pode a Igreja por si mesma mudar a sua doutrina sem cair, ela mesma, em heresia?

Cardeal Brandmüller: É evidente que a prática pastoral da Igreja não pode permanecer em oposição à sua doutrina imutável, muito menos ignorá-la. Da mesma maneira, um arquiteto poderia, talvez, construir uma ponte maravilhosa. Se não presta atenção às leis da engenharia estrutural, no entanto, ele corre o risco de fazer desmoronar a sua construção. Assim, também, toda prática pastoral, para não falhar, deve seguir a Palavra de Deus. Uma mudança da doutrina ou do dogma é impensável. Quem, porém, conscientemente o pensa, ou insistentemente demanda isso, é um herege – ainda que use a púrpura romana.

LifeSiteNews: Toda essa discussão sobre a admissão dos recasados à Santa Eucaristia não é também uma expressão do fato de que muitos católicos não acreditam mais na presença real e, de certa maneira, acham que recebem na Sagrada Comunhão apenas um pedaço de pão?

Cardeal Brandmüller: De fato, há uma insolúvel contradição interna em uma pessoa que quer receber o Corpo e Sangue de Cristo e unir-se a Ele, quando, ao mesmo tempo, despreza conscientemente o Seu mandamento. Como isso pode dar certo? São Paulo diz sobre esse problema: “Quem come e bebe indignamente [o Corpo e Sangue do Senhor], come e bebe a própria condenação” (1 Cor 11, 27). Mas, você está certo. Muitos católicos sequer acreditam na presença real de Cristo na hóstia consagrada. Qualquer um pode perceber isso na maneira como muitos – inclusive sacerdotes – passam em frente ao sacrário sem fazer uma genuflexão.

LifeSiteNews: Por que existe nos dias de hoje um ataque tão forte, dentro da Igreja, à indissolubilidade do matrimônio? Uma possível resposta poderia ser a de que o espírito de relativismo entrou na Igreja, mas deve haver mais razões. O senhor poderia citar algumas? Não são todas essas razões um sinal da crise de fé dentro da própria Igreja?

Cardeal Brandmüller: É evidente, se certos padrões morais, que eram aceitos por todas as pessoas, sempre e em todos os lugares, não são mais reconhecidos, então, cada um faz de si mesmo a sua própria norma moral. Isso tem a consequência de que as pessoas fazem o que agrada a elas. Acrescente-se a isso a abordagem individualista de vida que a reputa como uma chance única para a autorrealização – e não como uma missão do Criador. É evidente que tais atitudes são expressão de uma perda de fé profundamente arraigada.

LifeSiteNews: Nesse contexto, é possível afirmar que se falou muito pouco nas últimas décadas sobre a doutrina da queda e do pecado original. A impressão dominante era a de que o homem seria bom em tudo. Na minha visão, isso levou a uma atitude laxa em relação ao pecado. Agora, que nós vemos o resultado dessa atitude de laxismo – uma explosão de condutas desumanas em todas as áreas possíveis da vida humana –, isso não deve ser uma razão para a Igreja ver que a doutrina sobre a queda foi confirmada e para, por conta disso, proclamá-la de novo?

Cardeal Brandmüller: De fato, isso é verdade. O tópico “pecado original”, com as suas consequências – a necessidade da Redenção através do sofrimento, morte e ressurreição de Cristo – tem sido largamente suprimido e esquecido há um bom tempo. E, no entanto, não se pode entender o curso do mundo – e da própria vida pessoal – sem essas verdades. É inevitável que essa negligência das verdades essenciais leve a um estilo de vida imoral. Você está certo: deve-se finalmente pregar de novo sobre este tópico, e com claridade.

LifeSiteNews: Os elevados números de abortos, especialmente no Ocidente, têm feito um grande estrago, não somente pelos bebês que são mortos, mas também pelas mulheres (e homens) que decidem matar os seus filhos. Não deveriam os prelados da Igreja tomar uma posição firme a respeito dessa terrível verdade e tentar mover as consciências desses homens e mulheres, também em atenção à sua própria salvação? Não tem a Igreja o dever de defender com insistência esses pequeninos que não podem se defender por si mesmos, porque sequer lhes é permitido viver? “Deixai vir a Mim as criancinhas…”

Cardeal Brandmüller: Aqui se pode dizer que a Igreja, especialmente sob o governo dos últimos papas, bem como sob o pontificado do Santo Padre Francisco, não deixou nenhum espaço para dúvida quanto ao caráter abominável do assassinato das crianças não nascidas no ventre. Isso não deixa nenhuma dúvida também a todos os bispos. Outra questão, porém, é em que circunstâncias e de que forma o ensinamento da Igreja tem sido testemunhado e apresentado na esfera pública. Aqui é onde a hierarquia certamente pode fazer mais. Basta pensar na participação de cardeais e bispos em marchas pró-vida.

LifeSiteNews: Quais passos o senhor recomendaria para a Igreja fortalecer o chamado à santidade e mostrar o caminho para alcançá-la?

Cardeal Brandmüller: Certamente, cada um deve testemunhar a fé de modo que se encaixe em sua situação particular. De que forma isso pode acontecer, depende das circunstâncias específicas. Abre-se aí todo um campo para a criatividade.

LifeSiteNews: O que o senhor tem a dizer sobre as recentes declarações do bispo Franz-Josef Bode, de que a Igreja Católica deveria se adaptar cada vez mais às “realidades da vida” das pessoas de hoje e ajustar desse modo o seu ensinamento moral? Estou certo de que o senhor, como historiador da Igreja, tem diante de seus olhos outros exemplos da história da Igreja, nos quais ela foi pressionada de fora a mudar a doutrina de Cristo. Poderia mencionar alguns desses exemplos, e como a Igreja respondeu, no passado a tais ataques?

Cardeal Brandmüller: É absolutamente claro, e também não é novidade, que a proclamação do ensinamento da Igreja deva se adaptar às situações da vida concreta da sociedade e dos indivíduos, para que a mensagem seja ouvida. Mas isso se aplica somente ao modo de proclamação, e não a todo o seu conteúdo inviolável. Uma adaptação da doutrina moral não é aceitável. “Não vos conformeis a este mundo” (Rm 12, 2), diz o Apóstolo São Paulo. Se o bispo Bode ensina algo diferente, ele se acha em contradição com o ensinamento da Igreja. Será que ele está consciente disso?

LifeSiteNews: Está permitido à Igreja Católica na Alemanha seguir os seus próprios caminhos na questão da admissão dos recasados à Santa Eucaristia e, portanto, decidir independentemente de Roma,como declarou o Cardeal Reinhard Marx após o recente encontro da Conferência Episcopal Alemã?

Cardeal Brandmüller: As bem conhecidas afirmações do Cardeal Marx estão em contradição com o dogma da Igreja. Elas são irresponsáveis sob um ponto de vista pastoral, porque expõem os fiéis à confusão e a dúvidas. Se ele pensa que pode tomar nacionalmente um caminho independente, ele coloca a unidade da Igreja em risco. Resta dizer: o padrão obrigatório para todo o ensino e prática da Igreja são suas doutrinas claramente definidas.

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução: Equipe CNP

 


 

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