Voz que clama: intercedam por nós, pois somos filhos da mesma Igreja e temos a mesma Fé

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“Elaih-i, elaih-i… La-mah sabachthani?[1]” (Evangelho segundo São Mateus Apóstolo, cap. 27, vers. 46)

“Transpassaram as minhas mãos e os meus pés, posso contar todos os meus ossos” (Livro dos Salmos, cap. 21, vers. 16-17)

Por George-François Sassine – Fratres in Unum.com: Na mentalidade ocidental, tão “objetiva e prática”, tão “certa e vaidosa” de sua característica “sintética e pragmática”, certamente as frases em epígrafe passaram a ter muito pouco significado. Já não se vive e nem se entende a gravidade do dito por Nosso Senhor Crucificado e Agonizante ao Pai, quase um protesto de um Filho que O ama infinitamente.

Não tivesse o Ocidente abraçado ideais diabólicos como o iluminismo, a franco-maçonaria e o comunismo, talvez houvesse via por onde resgatar – ao menos – o signficado rememorado anualmente na Sexta-Feira da Paixão.

Mas afinal, o que tem de concreto o dito de Nosso Senhor com a vida de cada um “de nós”, neste tempo brutal de maravilhas tecnológicas e de devoção ao prazer?

A consequência direta disso é ainda mais grave: a mentalidade objetivista e naturalista ocidentais culminam com o esvaziamento do sentido místico da Paixão e Morte de Nosso Senhor, que pode e deve ser observado, pela perspectiva do Santo Sacrifício da Missa, no desdobramento da História.

O primeiro e mais grave ato de esvaziamento – gestado de dentro da Igreja – foi o golpe colocado ao rebanho latino: a dessacralização do rito romano por um novus ordo aggiornato.

Esvaziado o sentido sobrenatural, então não mais conhece mais o homem ocidental médio – em sua carne – a dor insuportável de Deus que se oculta para por à prova aquele que O ama. Por isso, o homem ocidental médio é incapaz de reconhecer esta dor em outrem, esteja onde estiver.

A Igreja trouxe a semente do Oriente, pelas mãos de homens simples e ignorantes do mundo, para ser plantada no Ocidente, para substituir o trono do máximo poder temporal e da falsa glória, para que todos os caminhos culminassem no Único e Possível Poder: a Fé Verdadeira da qual São Pedro é o fiel depositário.

Mas novamente, quem se lembra da Igreja para além das construções e do poder visível que emana de Roma?

Refugiados em um igreja, incerto se Mosul ou Irbil, da página síria “Syrian Christian Resistance”, no Facebook

“Ó vós, que passais pelo caminho, atentai e vede se há dor semelhante à minha dor”(Livro das Lamentações. 1, 12)

Eles são filhos de São Pedro e de São Tomé. São siríacos e caldeus. Falam o arábe e o idioma de Nosso Senhor. Têm origem apostólica. Recontam a Tradição sem necessidade de livros. Por alguns séculos estiveram separados do Santo Padre, mas depois retornaram como filhos pródigos.

Hoje, na planície de Nínive (na Mesopotâmia, território do Iraque), naquela mesma onde pregou o profeta Jonas, um pequeno rebanho sofre – além das próprias agruras da perseguição de uma seita demoníaca em doutrina e sua em atitude – o esquecimento daqueles que são, ou, ao menos deveriam, ser e agir como irmãos na Fé Ortodoxa de Nosso Senhor e de Seus Santos Apóstolos.

Fogem apenas com a roupa do corpo, vêem suas igrejas destruídas, as cruzes arrancadas, os altares profanados, os mosteiros queimados. São humilhados, extorquidos, escravizados, decapitados. São chamados de “nazranii” (nazarenos) como se isso fosse sinônimo de “infiel”.

Quem lhes virá em socorro? Até quando?

Santo Padre, esse teu povo clama a tua voz, que ela se erga em sua defesa e cobre – pragmática e objetivamente – aos poderosos deste mundo que ajam contra este massacre covarde. Dai-nos o exemplo, Santo Padre, para que o clero e os fiéis leigos ergam a voz e se indignem com justiça e piedade.

Instigai-nos a – concreta e pragmaticamente – nos esquecermos dos nossos confortos ocidentais e prestarmos nossa ajuda no carregar desta cruz. Provocai-nos os brios, para que não nos calemos e façamos da dor deles também nossa dor. Incitai em nós o desejo de também merecermos o desprezo mundano e de sermos também “nazranii”.

Porque eles são Igreja, Santo Padre, e morrem por amor ao Nome de Nosso Senhor. Eles são a tua Igreja que sofre. O sangue deles molha a terra, o nosso não.

Refugiados em um igreja, incerto se Mosul ou Irbil, da página síria “Syrian Christian Resistance”, no Facebook

Nos anos recentes, a onda islamita varreu o Egito, a Síria, agora o Iraque e já chega ao Líbano.

Na sua simplicidad,e meu avô me dizia que o tempo é inimigo nosso na medida em que nos apressa em querer entender, logo, nos levando ao engano da verdade.

Um caro amigo uma vez me lembrou: “O sofrimento que Deus permite é sinal de predileção”.

Nessas duas colocações aparentemente desconexas, reflete-se o que viveu Jó: destituído de tudo, indistintamente do tempo, não se apressou em “concluir e sintetizar”, em ser “pragmático e objetivo”. Mas glorificou a Deus a todo momento, apesar de toda sua dor e secura.

Sacrifício este que foi perfeccionado ao absoluto, conforme ensinou São João Crisóstomo: “… havia dois altares, a Cruz de Nosso Senhor e o Coração de Maria Santíssima…”.

Finalizo com uma reflexão a partir da oração preparatória para a Eucaristia na Divina Liturgia (de São João Crisóstomo):

“Recebei-me, hoje, participante da vossa ceia mística, / ó Filho de Deus. / Porque não revelarei vossos mistérios aos vossos inimigos, / nem Vos beijarei como Judas; / mas como o bom ladrão eu Vos digo: / lembrai-Vos de mim, Senhor, em vosso reino”

Nós nos resignamos em nossas misérias e escondemos nossos talentos, ou, vamos em busca de ser sal da terra?

Da nossa parte, em orações e obras, o que falta para que mereçamos a lembrança de Nosso Senhor?

KYRIE ELEISON, KYRIE ELEISON, KYRIE ELEISON.

* * *

[1] Do aramaico transliterado: ” Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste?”

Fonte: Fratres in unum.

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