QUANDO A VITÓRIA NÃO CHEGA

Publicado 21, de junho de 2005, em lfmeganha.wordpress.com

Temos vivido tempos difíceis, não bastasse a luta diária contra o pecado e por uma vida reta, somos contaminados pelos pregadores modernos que se tornaram arautos do bem estar, da vida boa e da vitória fácil. Muitos cristãos tem construído sua fé na crença de que se tudo vai bem estou no caminho certo. O servo de Deus “determina”, toma posse, age com autoridade, pisa no capeta. Nossas igrejas tem se tornado um circo, um espetáculo ridículo, de coreografias, gritos de ordem e catarse coletiva. E o pior de tudo é que as pessoas adoram.

Quem não gostaria de viver em um mundo onde Deus está pronto a realizar nossos desejos, presenteando seus filhos queridos com toda sorte de bens materiais, garantindo uma vida confortável e as melhores posições sociais. O problema é que muitas vezes a “vitória” não chega, o sofrimento permanece e angústia teima em aumentar. Nestes casos, estamos abandonados por Deus?

A verdade é que bíblia conta uma história muito diferente do ufanismo propagado por televangelistas e conferencistas de plantão. Enquanto estes estão focados em resultados, bênçãos, vitórias e na prosperidade material, a bíblia relata a história de homens e mulheres que sofreram injustiças, fome, pobreza e perseguições simplesmente por servirem a Deus.

Não é o caso de defesa do sofrimento como forma de alcançar a santidade, o favor de Deus ou a salvação. Trata-se de uma constatação simples, alguma coisa está errada no modo como as lideranças cristãs do nosso tempo tem tratado a palavra de Deus.

Gosto de trazer os exemplos dos textos bíblicos que, além de reforçarem o princípio da teologia reformada da sola scriptura, impactam de maneira irreversível as pessoas que tem contato com eles.

Por exemplo, é muito difícil imaginar Jesus realizando uma campanha para que seus seguidores recebessem um carro novo. Ou então que Ele ensinasse seus discípulos a determinarem que Deus realizasse algo, em razão da autoridade espiritual que possuíam. Pelo contrário nos podemos ver Jesus ensinar coisas como:

E disse Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. (Mateus 8:20)

Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? (Mateus 6:26)

Então Jesus, olhando em redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! E os discípulos se admiraram destas suas palavras; mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus. (Marcos 10:23-25)

Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; (Apocalipse 3:17)

Riquezas e conforto material nunca significaram alguma garantia, mas, pelo contrário, muitas vezes são apontadas como um obstáculo para a salvação da alma.

Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. (Mateus 6:21)

A verdade é que o ufanismo ultrapassa os limites dos bens materiais e chega a todas as esferas da vida do cristão. Pregadores modernos ensinam que: o crente não foi feito para sofrer; que doença só atinge quem não tem fé, que depressão não chega à casa do crente; a vitória está próxima!

Mas o que acontece quando a vitória não vem? Ou quando ela demora mais que o esperado?

As pessoas acabam sentindo-se abandonadas por Deus, afinal o Pastor falou que tenho que determinar a vitória. Outras vezes sentimos que a benção de Deus só alcança o outro, testemunhos que deveriam nos encorajar, aumentar a fé, servem apenas para fomentar uma inveja venenosa, onde o objeto do desejo é o próprio mover de Deus. Coisas que não deveriam acontecer com o crente estão acontecendo conosco.

A verdade é que os amigos de Deus nunca tiveram vida fácil. Profetas, pregadores, missionários ou qualquer outra pessoa, seriamente envolvida na obra, geralmente passam por grandes dificuldades.

Davi, mesmo depois de ungido rei, foi perseguido, maltratado, teve de se unir a bandidos para sobreviver, passou necessidade, angústias e frustrações. E só foi coroado muitos anos depois de ter recebido a unção que lhe dava direito ao trono. Lembrando que no caminho ele foi obrigado a casar com uma mulher que não amava e ainda perdeu seu melhor amigo. Sem falar em sua relação com Saul, o rei que iria substituir. Mesmo ungido rei Davi continuou protegendo e honrado à Saul, mesmo quando este queria matar Davi.

O que falar da vida do próprio Cristo? No exercício de seu ministério ele nunca buscou conforto, ou pagamento por seus atos. Andava por toda a judéia, entre aqueles que eram execrados. Tocava, e era tocado, por mulheres impuras e leprosos, o que na cultura local era completamente inaceitável. Dormia ao relento, e ainda tinha um traidor entre seus amigos mais chegados. Morreu na Cruz, cercado por malfeitores, com certeza ele não se enquadra em nenhum manual de teologia da prosperidade e do conforto. O evangelho da vida boa, na verdade, parece gritar contra cada ato do Senhor Jesus.

A resistência ao sofrimento e a resignação estão fora de moda. Ainda que o texto bíblico, tanto no novo quanto no velho testamento, apontem para a possibilidade da dor e do sofrimento, preferimos tapar o sol com a peneira do evangelho das facilidade.

E o pior é que as condições que mantem nosso sofrimento podem se perpetuar por algum tempo até que aconteça uma intervenção divina para o alívio:

E uma mulher, que tinha um fluxo de sangue, havia doze anos, e gastara com os médicos todos os seus haveres, e por nenhum pudera ser curada, (Lucas 8:43)

E achou ali certo homem, chamado Enéias, jazendo numa cama havia oito anos, o qual era paralítico. (Atos 9:33)

E estava ali um homem que, havia trinta e oito anos, se achava enfermo. E Jesus, vendo este deitado, e sabendo que estava neste estado havia muito tempo, disse-lhe: Queres ficar são? (João 5:5,6)

Estas pessoas levaram anos até que pudessem ser curadas. Quanto tempo irá durar nossa dor?

Não é possível responder este tipo de pergunta. Contudo, não podem ser as circunstâncias à determinar nosso relacionamento com Deus. Precisamos usar a dor como uma ferramenta de exercício da fé e da esperança. Lembrando que nossa esperança e fé não podem estar assentados nas pessoas ou na conjuntura, mas naquele que tem o poder para nos salvar e acabar com o sofrimento.

Nem sempre a vitória que esperamos virá. Mas que a graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém. (2 Coríntios 13:14)

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