Como um General Francês e um Coronel médico ajudaram a criar a PMDF de hoje

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Ao ser questionado por um cidadão como era possível que a Polícia Militar do Distrito Federal fosse de 1809, sendo que Brasília foi inaugurada em 1960, fiquei intrigado. Eu nunca tinha parado pra pensar como que a data de fundação da polícia era estranha para a população. Mas afinal, de onde surgiu esse ano de 1809?

Eu respondi ao homem que, pra variar, tudo é culpa de dois militares visionários, ou malucos dependendo do ponto de vista, que mudaram a história do mundo e do Brasil respectivamente.

Mas como um Italiano governando a França e um filho de Checos em Minas Gerais puderam ter parte na Polícia Militar do Distrito Federal atual? É o que iremos ver a seguir.

Brasão da PMDF: Data de fundação 1809.

O primeiro era chamado Napoleone di Buonaparte, ou Napoleão Bonaparte. Esse personagem histórico, nascido na Córsega, feito general aos 24 anos, foi sem dúvida, uma dos maiores gênios militares de todos os tempos. De temperamento irascível e com projetos de conquistas que deixariam Alexandre o Grande de boca aberta, levou a guerra de conquista a Europa e a África, tornando-se Imperador de um vasto território.

Napoleão Bonaparte. O primeiro homem a decretar a guerra total.

Porém, nem tudo saiu como planejado, antes mesmo da sua derrocada na Rússia e depois em Waterloo.

No auge do seu domínio territorial a França ainda tinha contas a acertar com a sua inimiga histórica, a Inglaterra, só que esse reino inimigo tinha uma vantagem tática: O canal da Mancha. Como a Inglaterra ficava em uma ilha, Napoleão, que era invencível em terra, teve que apelar para a esquadra espanhola e partir para o ataque naval, tentando destruir a frota Inglesa, em uma primeira etapa para um desembarque ao sul das ilhas Britânicas. Mas o Almirante da esquadra Britânica, Horatio Nelson, acabou com a festa na batalha de Trafalgar, que, infelizmente, custou a sua vida. Com esse revés Napoleão criou a política do bloqueio continental, visando paralisar o comércio da Inglaterra com os países europeus e suas colônias. No começo as coisas pareciam ir de acordo com o plano, contudo, um país ainda se fazia de desentendido: Portugal. Esse país de grandes navegadores e que foi uma potência mercante nos séculos XVI e XVII, agora se encontrava em uma situação difícil economicamente, dependendo praticamente de tudo da Inglaterra. Mas, Napoleão que reinava absoluto em praticamente toda Europa e que tinha acabado de invadir a Espanha, não teve dúvidas e deu um ultimato ao pequeno e desarmado reino periférico para que cessasse todas as relações com os ingleses ou seria invadido com a perda da coroa da rainha Maria para sempre.

Foi aí que a coisa começou a mudar. Devido a insanidade da Rainha mãe, o seu filho regente João, que passou a história como Dom João VI, decidiu uma manobra de altíssimo risco: A mudança da coroa portuguesa, com a sua administração, para o Brasil colônia, do outro lado do Atlântico. Com ajuda da marinha inglesa e com uma tática de desconversa com a França, o plano pôde ser levado a efeito em 1808 como a única fuga  imperial da história.

Após se instalar na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, Dom João teve que remontar toda a estrutura administrativa em terras de Vera Cruz, como o Banco Imperial, fundado como banco do Brasil, a Imprensa Régia, a Marinha Imperial e finalmente, em 1809, a Guarda Real de Polícia.

Dom João VI, fundador da PMDF.

Fundada com o efetivo de quatro companhias, uma de cavalaria e três de Infantaria, comandadas pelo Coronel de linha José Maria Rabelloe tendo como Subcomandante o Major Miguel Nunes Vidigal, (este último imortalizado no livro Memórias de um sargento de milícias), a Corporação iniciou as suas funções com a publicação do decreto de fundação em 13 de maio de 1809.

Após o fim da guerra na Europa e o confinamento de Napoleão, o Rei Dom João se recusava a voltar para Lisboa, até que teve de ceder devido a assembleia das cortes, convocada para pressionar o monarca a voltar a Portugal e a rebaixar o Brasil, então Reino Unido a Portugal, de volta a categoria de colônia. Com muito custo e a contragosto, o velho retornou, deixando o seu filho, Dom Pedro, como seu substituto. Contudo, toda a estrutura para o país funcionar autônomo já estava criada e a GRP continuou os seus trabalhos durante 151 anos no Rio de Janeiro, então Capital do Brasil.

Graças a essa manobra Dom João foi lembrado por Napoleão, em suas memórias na ilha de Santa Helena, como “o único que me enganou.” O que como vimos não foi fácil e nem simples.

Por isso, se não fosse por Napoleão Bonaparte a família real portuguesa jamais pisaria em terra brasilis, o Brasil jamais teria recebido a sua infraestrutura administrativa, teria o seu corpo policial fundado muito tempo depois e, provavelmente, teria se fragmentado em um grande número de países pequenos e fracos, como aconteceu com a América Espanhola.

 O segundo militar se chamava Juscelino Kubitscheck de Oliveira. Esse homem considerado pela revista Isto É como o brasileiro do século, nascido em Diamantina, Minas Gerais, descendente de Checos, foi Seminarista, médico, Tenente Coronel da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais e político.

De temperamento dócil e jovial, que mais tarde seria conhecido como o presidente “bossa nova”, era também um homem de visão, que sabia sonhar, mas sem perder o senso prático. Administrador incansável, vez o Brasil saltar de exportador de café, para um país industrializado em cinco anos.

JK, como veio a ser conhecido, iniciou a sua vida independente no Seminário católico, mas, ao perceber que a vida de Padre não era a sua vocação, seguiu para Belo Horizonte, onde trabalhava na empresa de correios e telégrafos à noite, enquanto cursava medicina durante o dia. Após se formar, ingressou na Polícia Militar como Oficial médico, chegando a ser mandado para o front durante a revolução constitucionalista de 1932. Foi durante esse período sangrento da história brasileira que Capitão Juscelino conheceu políticos importantes como Benedito Valadares, que mais tarde, quando prefeito de Belo Horizonte, lembrou-se de seu velho amigo, fazendo-o entrar para a política como seu secretario.

Foto da capa do livro Kasos e Kasos com J. de Hélio Gonçalves. Livro raro pertencente ao acervo do autor do artigo.

 Logo ao após esse período a carreira de homem público seguiu de maneira meteórica, se elegendo prefeito de Belo Horizonte até alcançar a presidência da República.

Juscelino nunca tinha pensado em mudar a Capital da antiga sede no Rio de Janeiro para o interior do Brasil. Em que pese essa ambição nacional estivesse entranhada no imaginário do país desde os tempos do Império e já com estudos avançados, como os feitos pela missão Cruls, que praticamente já havia delimitado o Planalto Central como o futuro Distrito Federal, nenhuma data havia sido marcada para a mudança. O mais grave é que todas as Constituições brasileiras traziam nos seus primeiros parágrafos que a Capital deveria ser transferida para o interior o quanto antes.

Foi por isso que durante um discurso na cidade goiana de Jataí, ao ser questionado por um eleitor em um comício, durante a campanha para a presidência, se iria cumprir a Constituição, Juscelino respondeu que sim, sendo perguntado logo em seguida se ele iria então transferir a Capital para o planalto central, ele num arroubo, respondeu que iria construir e transferir antes que o seu mandato acabasse.

O Coronel da PM de Minas Gerais médico JK ao telefone.

 A partir daí a mudança a Capital virou a mola mestra do governo, que numa das maiores façanhas da história humana, conseguiu planejar e executar a construção da nova Capital brasileira, com toda a infraestrutura e inaugurá-la em cinco anos. Para que tenhamos noção, seria como se hoje, se tentasse transferir a Capital para a região mais inóspita da Amazônia em 5 anos. Parecia impossível, mas assim foi feito e a cidade, novinha em folha, foi inaugurada na data prevista: 21 de abril de 1960.

Como tudo que estava na antiga Capital, pessoas, repartições, documentos, foram transferidos para Brasília, a Polícia Militar do Distrito Federal não foi exceção, vindo a ser transferida com uma companhia para a cidade. O restante dos policiais que não puderam, ou não quiseram vir, foram incorporados na Polícia Militar do Estado da Guanabara, que depois veio a se fundir com o Estado do Rio de Janeiro.

 Caso o Presidente eleito fosse outro, com certeza absoluta, Brasília não teria sido construída, e a PMDF, juntamente com tudo e todos, estariam hoje na cidade do Rio de Janeiro, e o Brasil seria muito diferente, e, talvez, muito pior e mais pobre.

 Foi assim que dois homens de nacionalidades diferentes, separados por mais de cem anos, em continentes distintos, foram parte ativa na história do Brasil e do mundo, sendo a PMDF atual uma testemunha silenciosa da evolução histórica que marcou profundamente países e povos para sempre.

Olavo Mendonça.

Publicado na Revista Polícia em Foco.

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