O Ciclo completo de polícia e a Roda Viva

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A Roda Viva, no meu entendimento, é um fenômeno que sugere que as ações adotadas levam sempre a uma mesma conclusão e se iniciam novamente do ponto de partida. Nesses 17 anos e 4 meses de profissão a Roda Viva é uma boa forma de explicar como tratamos a Segurança Pública no Brasil. O fato é que, de forma simples e direta, são realizadas as mesmas ações sempre (com diferentes nomes) e esperamos resultados diferentes.

O debate sobre a realização do ciclo completo de polícia pela Polícia Militar, que é a única Polícia no Brasil que não funciona de forma completa na condução de fatos criminosos, foi o primeiro fato em mais de uma década que sugere que algo possa vir a ser diferente dentro da Roda Viva das ações de Segurança Pública no nosso país em um futuro próximo.

Desde que comecei a entender um pouco sobre a Segurança Pública, ainda na Academia de Polícia Militar, percebi que as Polícias em geral tratam o combate à criminalidade com o emprego de homens e meios (viaturas, armas, equipamentos de investigação, etc). De forma prática, se temos algum local ou tipo de crime que está incomodando a tranquilidade pública, mobilizam-se homens e meios para o local ou se voltam para algum grupo suspeito e realizam operações. Depois de um período de ação apresentam-se os dados sobre o aparente sucesso da empreitada, no caso, presos e armas, dados estatísticos e algumas pessoas dizendo que estão gratas pelas ações desenvolvidas. Então muito pouco ou quase nada é feito para erradicar ou conter o fato gerador que movem a disposição dos indivíduos e a disponibilidade de meios para essas mesmas ações criminosas. Um grande engodo social que ruminamos por um tempo e regurgitamos, em razão de mudanças sazonais criminais, que ainda não aprendemos a decifrar. E ainda somos obrigados a ouvir de policiais de outras gerações declamando que em seu tempo não era assim ou que suas ações foram decisivas para mudar a realidade no tempo em que estavam no combate ao crime.

Com o debate do Ciclo completo estamos promovendo uma discussão que, realmente, mudará a realidade de atuação na principal forma de enfrentamento do crime Brasil, e ela será mais preventiva do que repressiva.

É um despropósito a Polícia Militar trabalhar completamente apartada da Polícia Civil e vice-versa. Dentre vários benefícios que o Ciclo Completo praticado pela Polícia Militar pode promover vou enfocar neste: Todas as operações é ações realizadas pela Polícia Militar nas diversas cidades do país excluem completamente a Polícia Civil e seus agentes, salvo em ações pontuais onde alguns dos integrantes dessas instituições por disposição pessoal fazem alguns contatos e acordos de cooperação. Institucionalmente desconheço qualquer estrutura formal que promova essa interação e se houver ela está sendo completamente desconsiderada. O Ciclo ofereceria as duas Instituições a mesma condição de acompanhamento do delito e de suas consequências. É uma grande iniciativa para enfrentarmos um dos maiores problemas da Segurança Pública que é a cultura coorporativa de isolamento e de enfretamentos, construída em cima de preconceitos e sentimentalidades, que atualmente separam as duas corporações protagonistas da segurança da população. Se algum leitor acredita que estou exagerando ou que o embate entra estas duas Corporações são fatos isolados como é exaustivamente repetido na mídia por secretários e governadores quando se pronunciam a respeito disso eu pergunto: Porque a Polícia Militar não tem acesso aos sistemas de consulta criminal com os dados que a própria PM levou para a polícia civil? Este é somente um exemplo e não pretendo me alongar em outros fatos para justificar o que é óbvio para especialistas e leigos em segurança pública.

Por fim, discordo de todas as falácias e propagandas de conteúdos preconceituosos que não apontam para soluções necessárias para a promoção da paz social tanto almejada por nós. O Ciclo Completo, a despeito de todas essas bobagens utópicas, quando realizado pela Polícia Militar será o início de outras discussões que nos distanciarão de rodarmos exaustivamente nas mesmas ações até o ponto de partida, da flagelada Segurança Pública no Brasil.

Eduardo Matos.

Fonte da foto: AOPM.

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