POLÍCIAS ALGEMADAS, POVO DOMINADO, ESTADOS MORTOS: GUERRAS DE QUARTA GERAÇÃO

Há algum tempo vimos desenvolvendo uma estrutura conceitual diferenciada de Guerras de Quarta Geração – G4G – relativamente a outros pesquisadores do tema. Essa estrutura é composta por três espécies de guerras interconectadas: guerras identitárias – GI -, guerras contra as instituições – GCI – e guerras híbridas – GH.

Nossos estudos nos levam a crer que um conceito mais estável ainda não se consolidou, porque os pesquisadores mais eminentes ainda não alcançaram o consenso sobre quais seriam as características notáveis e os limites das G4G, necessários para o estabelecimento dos seus conceitos e das suas definições.

Devido a isso, persistem confusões e imprecisões conceituais que permitem a cada um apresentar as suas idéias, algumas vezes sem grandes compromissos com a lógica.

Como a maioria dos leitores também não tem condições de realizar por si mesmo análises mais profundamente embasadas, sobretudo neste campo do conhecimento, o que costuma prevalecer não são as evidencias científicas, mas sim o argumento de autoridade. Este “argumento” é aceitável no estágio teórico inicial de qualquer campo do conhecimento, mas indesejável naqueles mais adiantados. O que geralmente não se faz, nestes casos, é distinguir adequadamente as hipóteses das teses e, na sequência, distinguir as teses das teorias.

Sem dúvida, nem sempre é fácil realizar tais distinções. Todos os seres humanos sofrem de certa “oclusão cognitiva”. Como o conhecimento é constantemente ampliado a taxas assustadoras, é praticamente impossível a qualquer especialista acompanhar a sua evolução. Nossas capacidades mentais são dispostas de tal modo que geralmente nos apegamos a alguns aspectos da realidade concreta ou abstrata e passamos vê-las somente sob ângulos estritos. Assim, é comum que os especialistas em determinados campos do conhecimento encontrem dificuldades em perceber as mudanças profundas que ocorrem na humanidade e a necessidade da conversão dos seus próprios esquemas mentais para obterem a capacidade de interpretar as novas realidades em curso.

Ocorre que, embora seja comumente verdadeiro que os especialistas de uma área estejam mais qualificados do que aqueles que não fazem parte deste grupo, é igualmente verdadeiro que algumas vezes aqueles especialistas que sofrem da referida incapacidade cognitiva temporária que os impede de perceber fatos que destoem das suas crenças, pressuposições e formação acadêmica, por conseguinte, também não percebem os liames entre tais fatos. Algumas vezes, contudo, observadores externos a qualquer especialidade, por estarem privados do modelo mental dos especialistas, portanto com suas janelas cognitivas abertas para observarem detalhes diferentes na paisagem, conseguem perceber fatos que anulam as teses centrais de uma teoria aceita a tempo suficiente para ser tomada como expressão inquestionável da realidade.

Atualmente se reconhece que quase invariavelmente uma explicação diferente sofrerá uma negação inicial por parte dos especialistas. Este processo psicológico já foi mapeado e sabe-se que à negação segue-se a revolta, depois a tentativa de negociação e finalmente a aceitação.

Aos estudos que se pretendem científicos, a primeira negação será a do fato, pois se existência deste não for reconhecida, faltará base explanatória. Sem fatos não se estabelecem as relações necessárias para formular uma teoria; assim, qualquer argumento torna-se inválido. Neste caso, se o pesquisador fonte da descrição dos fatos, e das suas relações, concretas ou abstratas, for estranho ao campo de conhecimento a tendência é o aumento da resistência as descrições da realidade que não haviam sido percebidas por aqueles a quem cabia por dever de ofício tê-las captado e descrito com antecedência. Em condições de incerteza teórica o “argumento de autoridade” impor-se-á, apesar do discurso da racionalidade científica. A história da ciência nos demonstra sobejamente que a resistência aos fatos novos, ou explicações novas para fatos antigos é muito comum, mesmo que a fonte seja par dos especialistas do campo do conhecimento em questão.

Ao relatar tal processo, não defendemos a extinção da resistência às novas explicações, devido à impossibilidade de que uma característica humana ainda arraigada sofra ações que visem à sua extirpação. Aqueles de espírito mais inovador têm a resistência às novidades como algo negativo, entretanto, ela é indispensável, pois opera como um instrumento seletivo. É óbvio que nem sempre a filtragem facilita que a verdadeira ou a melhor tese seja a aceita, porém, ainda que imperfeito, é um instrumento válido.

Sem a resistência, fatos inverídicos seriam aceitos sem questionamento, perturbando seriamente a formação do cabedal de conhecimentos importantes para a sociedade.

Para vencer a resistência o proponente deve contra-argumentar com vigorosos que sobrepujem a oposição às suas descrições, hipóteses e teses. Desse embate exsurge o consenso, característica da ciência. Não se faz ciência sem acordos sobre pontos fundamentais, assim como não se faz sem crítica. Esta é o meio do caminho entre o consenso e o dissenso.

Sem perder o fio condutor do assunto G4G e suas espécies, asseveramos que a GH recebe maior destaque daqueles que tem refletido sobre este tema. Em nosso modo de entender, tal espécie vem sendo confundida com o gênero G4G. Talvez pela vaidade de apresentar uma idéia original, alguns estudiosos atribuam inovações revolucionárias a fatos que, em essência, não diferem de outros mais comuns. Adicionalmente, não excluímos a probabilidade de que os proponentes das novas idéias, apesar das relevantes titulações acadêmicas, não tenham realizado observações acuradas dos fatos, distinguindo corretamente as suas constituições intrínseca e extrínseca, nem percebido as relações lógicas interna e externa, inclusive devido à carência de formação mais sólida na ciência e na arte do pensamento válido.

A confusão a que nos referimos pode ser desfeita com a compreensão da lógica mais elementar. Se as GH são espécies, então o são de algum gênero, e o que é inerente ao gênero também o é à espécie. Pelas leis da lógica o que caracteriza uma espécie é o estar contida em um gênero, mas contendo alguma diferença específica. Logo, as guerras híbridas possuem todas as características das outras, porém com algo que as diferencia.

Paralelamente, se dá pouca atenção às GCI, e menos ainda as GI. Disso resulta que o quadro teórico apresenta-se obscuro e as reações aos seus efeitos deletérios são erráticas, esporádicas e ineficazes. A estrutura conceitual que desenvolvemos integra estas modalidades de “novas” guerras em um quadro único, mostrando suas relações intrínsecas e extrínsecas, até onde possível.

A reta compreensão dos fatos que estão afetando gravemente a nossa nação, bem como das suas relações e correlações, exige-nos uma breve introdução descritiva de alguns pontos que tornarão um pouco mais claras as idéias que apenas começam a se esboçar. Precisamos captar e entender os novos conceitos que se formaram para que nossos olhos físicos e mentais consigam perceber uma realidade que até ha pouco se escondia furtivamente sob uma multidão de fatos que para nós, embora percebendo o perigo que representam, apresentavam-se embaralhados, indistintos e desconexos. Somente quando conseguimos enxergar os diferentes fatos como se fossem pontos de uma figura geométrica, e os tênues, porém fortes, fios que ligam todos eles, é que a sua configuração se faz clara e o seu desenho se projeta com nitidez para nossa análise racional.

A essência da guerra

Sem dúvida o aspecto mais perceptível, característico e permanente de qualquer guerra é a violência. Não existe guerra sem violência, então esta é a essência daquela. Conflitos podem ocorrer em planos nos quais possam ser resolvidos sem recorrer à força. Quando é resolvido por intermédio do diálogo damos o nome de política; quando somente é encerrado por meio do recurso à violência, denominamos guerra. O termo violência refere-se a qualquer ação contrária à ordem ou disposição da natureza, humana ou não-humana. O homem é um ser racional, por isso o apelo à violência implica a negação da racionalidade que o caracteriza. Sob o ponto de vista da natureza, distinguem-se dois movimentos, um segundo a natureza, ou seja, o que leva os elementos ao seu lugar natural, e o movimento por violência que é o que os afasta deste lugar.

Obrigar alguém a não alimentar-se durante muitos dias é uma violência, mesmo que quem obrigue não use de força bruta para tal, mas somente de algum tipo de influencia, por exemplo.

Alimentar-se para conservar a vida é uma ação segundo a natureza dos seres vivos, contrariar esta necessidade natural é, portanto, uma violência, ainda que não sejam produzidos ferimentos visíveis no ser vivo.

A fome provocada por Stalin na Ucrânia foi uma violência gigante, pois matou sete milhões de pessoas. Sob o ponto de vista das convenções humanas, violência é toda ação contrária à ordem moral, política ou jurídica, assim alguém pode sofrer ou cometer violência sempre que contrariar estas ordens, ou se elas forem contrariadas contra si.

A média da humanidade evita a violência, apesar de um segmento considerá-la uma virtude, quando se trata de transformar a sociedade. Por exemplo, George Sorel, o polêmico socialista francês do final do século XIX e início do século XX, afirmava que “O socialismo deve à violência os altos valores morais com que oferece salvação ao mundo moderno” . Sendo isso verdade ou não, o certo é que Sorel influenciou importantes pensadores políticos do século XX e movimentos políticos que hoje ressurgem das cinzas e acendem suas rubras chamas de ódio, incendiando a sociedade.

Ao escrever sobre o “mito” da violência, o filósofo do sindicalismo tornou-se, talvez sem esta intenção, o pioneiro do fascismo e do nazismo. Ambos os movimentos, um de origem italiana e o outro de origem alemã, tinham-na como o seu principal modo de atuação. A violência aparece, assim, como um método que procura romper com milênios de tradição cristã, que oferecia o amor como o único modo autêntico para a transformação da sociedade.

Façamos aqui uma comparação rápida com o Cristianismo. Para este, de modo geral, é o amor que salva, enquanto para o materialismo histórico a violência é um meio de chegar à “salvação”, isto é, ao socialismo. O amor não é violento, porque respeita as inclinações naturais dos indivíduos e identifica uma dignidade natural nos seres humanos, enquanto no socialismo, que entende que a dignidade reside na classe social proletária exclusivamente, o amor não exerce qualquer papel transformativo das estruturas sociais, portanto, somente a violência poderá implantar a ordem socialista.

Tomando distância dessas doutrinas, no mundo atual, economicamente globalizado, verificamos que aqueles que desejam alterar profundamente a estrutura das sociedades para dominá-las, colocam-se fora de qualquer limitação ideológica, porquanto usam as ideologias com o objetivo de destruir sociedades inteiras. O que os caracteriza, no entanto, é que são diametralmente opostos aos valores cristãos, típicos da maioria das sociedades ocidentais. Isto significa que a violência, seja qual for a sua modalidade, é o instrumento eleito para a conquista dos seus objetivos.
Retornando à análise conotativa, observamos, então, que o termo violência, no seu sentido amplo não se refere a ferimentos físicos exclusivamente; mas no seu sentido restrito, ou vulgar, entende-se exclusivamente desse modo, tanto que se não houver ferimentos ou tentativas de provocá-los, geralmente acredita-se que não houve violência alguma. De certa forma, essa maneira restrita de entendê-la cria barreiras mentais que impedem a percepção clara daquelas que são praticadas de outros modos não tão evidentes. Enfim, não existe guerra sem violência!

Parece um truísmo afirmar que não existe guerra sem presença da violência. Similarmente, confunde o senso comum a afirmação de que estamos em guerra, já que a essência desta atividade, a violência, não é percebida pelas pessoas. Aqui precisamos fazer mais algumas distinções para melhor iluminar o tema.

A definição de violência varia de acordo com o campo de estudo. Em filosofia, ou para ser mais específico, em metafísica, violência é tudo que contraria o movimento natural das coisas. Neste caso, o termo movimento não se refere ao deslocamento físico das coisas, mas as suas transformações, o seu crescimento ou decrescimento, à evolução dos indivíduos em conformidade aos padrões da sua espécie ou gênero. Por exemplo, no Japão feudal, algumas mulheres eram obrigadas a usar sapatos apertados deste a infância para que seus pés não crescessem, pois mulheres adultas com pés pequenos eram consideradas mais belas do que aquelas em que os pés cresceram normalmente. Isso era uma forma de violência, porque contrariava a ordem ou a disposição da natureza dos seres humanos normais. Portanto, nesta disciplina, tudo o que afasta os elementos do seu lugar ou direção natural é violência.

No sentido físico do termo, violência é qualquer ação que vise causar danos ou destruir pessoas ou coisas. E no sentido sócio-político, violência é qualquer ação contrária à ordem moral, jurídica ou política.

Cremos ter feito alguns esclarecimentos que nos conduzirão a uma compreensão mais precisa das novas modalidades de guerra que se manifestam em nosso tempo. Não as compreender adequadamente pode nos conduzir a um estado de derrota e subjugação por outros “povos”. Portanto, é necessário o estudo atento destas questões teóricas para as ações defensivas possam atingir a eficácia desejada. Sabemos que o preço da liberdade é a eterna vigilância, mas a vigilância é muito mais do que olhar atentamente; é também saber distinguir, conceituar e definir realidades que se apresentam ainda em meio ao nevoeiro teórico.

Ivomar Schuler

O conceito de Guerra identitária foi criado por mim há pelo menos cinco anos, e não se confunde com os conceitos de identitarismo, pautas identitárias, agenda identitária e políticas identitárias. É verdade que existem conexões entre guerra identitária e os termos semelhantes, mas são bastante distintos.

Réflexions sur la violence, 1966, trad. it., p. 133.

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