A tatuagem e sua moralidade

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Vemos em nossos tempos um número cada vez maior de tatuagens em diversos tipos de ambientes. É preciso dizer algo, ainda que brevemente, quanto à moralidade delas.

Alguns afirmam não haver problema com tatuagens em nossos dias atuais e que o preceito dado no Antigo Testamento (Levítico XIX, 28: “Não fareis incisões na vossa carne, por causa de algum morto, nem fareis figuras algumas ou sinais sobre o vosso corpo. Eu sou o Senhor.”) com relação a isso era válido unicamente pelo fato de ela favorecer o paganismo naquele contexto. A tatuagem era coisa de pagãos. Assim, o povo judeu era o único povo monoteísta, rodeado de pagãos e, para ser preservado na crença em um só Deus, o Senhor deu-lhe vários preceitos circunstanciais. Entre eles, a não utilização de tatuagem, que poderia favorecer a infidelidade do povo israelita naquele contexto. Portanto, a proibição da tatuagem não era a proibição da tatuagem em si, mas a proibição em virtude das circunstâncias. Continuam o argumento dizendo que essas circunstâncias já não existem e, consequentemente, a tatuagem pode ser lícita. Em geral, é esse o raciocínio que se faz em favor da tatuagem. É preciso fazer, diante disso, duas perguntas: (1) as circunstâncias que existiam na época e que proibiam a tatuagem realmente não existem mais? (2) a tatuagem é lícita sem uma causa proporcional que a justifique?

(1) Parece-nos claro que a mesma razão que proibia a tatuagem no Antigo Testamento continua sendo válida hoje. A associação com o paganismo da época passada é substituída pela associação com o neo-paganismo reinante em nossos dias, pela cultura de revolta e de rebelião contra a ordem natural e sobrenatural. Não se deve considerar como um puro acaso que a tatuagem tenha se difundido e se difunda justamente no momento em que o catolicismo recua e que uma nova ordem, independente de Cristo ,se estabelece. Essa nova ordem tem uma concepção altamente errônea do corpo, colocando-o irracionalmente acima da alma (hedonismo) ao mesmo tempo em que o despreza (donde a cremação e as tatuagens). Aqueles que defendem que se pode fazer a tatuagem hoje simplesmente porque já estamos no Novo Testamento, sob a lei da graça, adotam uma postura que poderíamos chamar de essencialista. Dizem: se algo não é intrinsecamente mau, se não é essencialmente mau, se não é em si proibido, podemos fazer, pois estamos na Nova Aliança, não precisamos nos preocupar com esses detalhes, pois Cristo nos liberou deles. É a tese de que, se não é pecado em si, pode-se fazer. Ora, para se julgar da moralidade de um ato humano, é preciso levar também em conta as circunstâncias, mesmo no Novo testamento, como é evidente. É preciso levar em conta as circunstâncias, sem cair, porém em uma espécie de existencialismo, sem cair na moral de situação, em que só se consideram as circunstâncias sem considerar o ato em si. São Paulo, para resolver a questão da carne oferecida aos ídolos, por exemplo, considera justamente as circunstâncias. A carne oferecida aos ídolos não é em si má, pode-se comê-la, a princípio. Todavia, pela circunstância do possível escândalo gerado para os fracos, não se deve comê-la, se o escândalo for previsível. Em um ato humano, portanto, é preciso considerar o ato em si, a finalidade e as circunstâncias. Para que um ato seja bom, ele precisa ser integralmente bom – bonum ex integra causa. Assim, o ato para ser moralmente bom precisa ser bom em si mesmo ou indiferente, precisa ser feito conforme as circunstâncias o pedem e o agente deve ter uma boa finalidade. Se há um defeito em um dos três aspectos, o ato já não pode ser classificado como bom, pois basta um só defeito para que o ato seja mau – malum ex quocumque defectu. No tempo presente, é relativamente claro que as circunstâncias ainda militam fortemente contra a tatuagem, pois está muito associada a uma revolta contra o real, contra a ordem estabelecida, contra os superiores, portanto contra Deus. Ela está associada a uma mentalidade neo-pagã, sendo fruto dela e conduzindo a ela.

(2) Além disso, e independente das circunstâncias, a tatuagem marca o corpo praticamente de forma indelével, o que constitui um tipo de mutilação. Ora, a mutilação só é lícita se há causa proporcionalmente grave. Assim, só podemos mutilar uma parte de nosso corpo em vista do bem do todo, pois o homem não tem um domínio completo sobre o seu próprio corpo. É importante compreender que o homem não tem um domínio completo sobre o seu corpo: o homem só pode dispor de seu corpo para os usos determinados por Deus através da própria natureza do homem. Essa ausência de domínio absoluto sobre o próprio corpo destrói até mesmo o absurdo argumento das feministas, que querem o aborto porque pretendem fazer o que quiserem com o próprio corpo. A finalidade proposta pela tatuagem não é, evidentemente, o bem do todo, nem outro bem proporcional à mutilação causada pela tatuagem. Quem se tatua, normalmente o faz por vaidade, para ser visto pelos outros, para chocar, para mostrar uma pretensa força, etc. Todos esses motivos são motivos desordenados, o que torna a tatuagem pecaminosa (gravemente ou venialmente, dependendo do tamanho, do tema, do local em que é feita, do grau de malícia da intenção). O mesmo, porém, não se pode dizer de brincos usados segundo o costume recebido, pois eles são usados como adereço feminino, que distingue a mulher do homem e corresponde à inclinação natural da mulher de se ornar, desde que com moderação.

Na prática:

(a) Se a tatuagem é uma imagem ou frase diabólica, esotérica, ou que envolve símbolos de falsas religiões, vai contra o 1º mandamento, contra a virtude de religião. Se a tatuagem é simplesmente feia ou de mau gosto, ela é uma exaltação da feiura, se opondo a Deus, infinitamente belo. Promover e se alegrar com o feio se opõe à ordem natural e é promover o reino do demônio.

(b) Se a tatuagem for de um símbolo religioso, como uma Cruz ou Nossa Senhora, por exemplo, é um pecado de irreverência, contrário, portanto, ao 2º mandamento, à virtude de religião.

(c) Se o objetivo for repelir, intimidar, chocar os outros, ela se opõe à caridade fraterna, ao 5º mandamento.

(d) Se o objetivo for se opor aos superiores, ao pais, à ordem, etc., se opõe ao 4º mandamento, isto é, à virtude de piedade.

(e) Se for por vaidade, isto é, para chamar a atenção dos outros, para exaltar alguma qualidade, é contra a humildade. Opõe-se também à modéstia chamando demasiadamente atenção ao exterior da pessoa.

(f) Se a tatuagem for de algo indecente ou impuro, ou de uma frase indecente ou impura, se opõe ao sexto mandamento. Ela pode se opor ao 6º mandamento também pela sua localização ou por dirigir olhares para partes menos honestas.

Em suma, é quase impossível haver uma causa proporcional para justificar uma tatuagem em nossa civilização. A pele humana não é uma tela. Foi criada com outra finalidade: servir a Deus sendo ordenado pela alma. Raciocínio análogo se aplica a piercings e coisas semelhantes.

Se uma tatuagem é gravemente pecaminosa, por exemplo, opondo-se ao primeiro mandamento ou ao sexto, a obrigação de tirá-la é grave. Também a sua visibilidade pelas outras pessoas aumenta a necessidade de tirá-la. Se ela for levemente pecaminosa, a obrigação é leve.

Todavia, há cristãos que já há muito tempo (desde a Idade Média, ao menos) fazem tatuagens, que são os coptas. Aparentemente, começaram a fazê-lo para se protegerem contra o Islã. Tanto para dificultar a apostasia – pois tendo a tatuagem não poderão negar que são cristãos – quanto para poderem ser identificados pelos outros cristãos, se forem sequestrados ou assassinados. Nesse caso, há uma causa proporcionalmente grave para se fazer a tatuagem. Normalmente, esses cristãos fazem uma pequena cruz no punho ou na mão.

Há também o caso de Santa Joana de Chantal, que marcou o Santo Nome de Jesus com ferro incandescente em seu coração. Ora, a santa fez isso por moção divina, o que torna a ação lícita, já que Deus tem o domínio absoluto sobre o nosso corpo. Ela não o fez por simples veleidade, mas por inspiração divina.

Portanto, as circunstâncias – associação com o paganismo – que existiam à época dos judeus e que levaram à proibição da tatuagem continuam bem presentes em nossa sociedade neo-paganizada, com uma concepção não cristã do corpo. E a tatuagem não é intrinsecamente má, mas seria preciso uma causa proporcionalmente grave para fazê-la sem pecado. Não encontramos essas causas em nossa sociedade. A vaidade, o desejo de chamar a atenção, de estar na moda, de fazer como todos fazem, ou de mostrar algo que temos, somos, ou pensamos, não são causas que justifiquem a tatuagem. Encontrar nessas causas uma justificativa para a tatuagem é tornar-se um católico mundano.

É preciso se revestir de Cristo, de sua graça e virtudes e não de tatuagens, que são indício de barbárie e de corrupção da reta razão.

Pode-se ler com proveito:

Padre James Jackson, FSSP :

http://www.thinkinghousewife.com/wp/2011/04/on-the-morality-of-tattoos/

Padre Peter Joseph, professor de Seminário:

http://www.latinmassmagazine.com/articles/articles_2002_SU_Joseph.html

Pe Daniel Pinheiro.

Fonte: Missa Tridentina em Brasília.

Nota do BlitzDigital: Para ler sobre a conexão intrínseca das tatuagens com o mundo do crime e do ocultismo leia o artigo abaixo:

Cultura Criminal

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