Crítica alemã detona o filme Marighella, de Wagner Moura

Apesar do empenho em transformar o terrorista em mito a mediocridade da película não convence e filme não ganha nada em no festival de Berlim

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Apesar das sucessivas derrotas sofridas no campo político a esquerda brasileira não baixa a guarda, principalmente no campo cultural. Uma prova viva é o filme do ator, e ex-capitão Nascimento, Wagner Moura sobre a vida do guerrilheiro comunista e terrorista Carlos Marighella. Financiado através de renúncia fiscal proporcionada pela Lei Rouanet, o filme não tem compromisso com a bilheteria, mas foi realizado para ser referência e inspiração para militância.

As falsificações do filme começam na escolha do ator que interpreta o terrorista, Seu Jorge. A motivação é clara, Wagner Moura tenta criar a narrativa de que a repressão aos movimentos revolucionários, durante o governo militar, ao invés de uma motivação político ideológica, na verdade, teriam uma motivação racista. A mentira beira o ridículo quando o personagem Delegado Lúcio afirma que “matar um preto é o mesmo que matar um vermelho”. O que a produção deixa de mostrar é que os grupos armados que operaram no Brasil eram majoritariamente formados por jovens universitários de classe média e brancos.

Presos políticos libertados em troca da liberdade do embaixador dos EUA, em 1969. Sequestro promovido pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e pela Ação Libertadora Nacional (ALN)

Não bastassem as contradições mais evidentes a promoção de Marighella ao status herói é um acinte a inteligência do espectador medianamente informado. Basta uma breve leitura de sua “obra prima”, Mini Manual do Guerrilheiro Urbano, para deparar-se com um homem de natureza violenta comprometido de tal maneira com seus objetivos políticos que, em sua visão, os métodos mais violentos são justos se contribuem com a causa. No capítulo que trata do apoio popular pode-se notar o respeito do autor pela democracia e seu compromisso com os direitos fundamentais:

Atacando de coração esta falsa eleição e a chamada “solução política” tão apeladora aos oportunistas, o guerrilheiro urbano tem que se fazer mais agressivo e violento, girando em torno da sabotagem, do terrorismo, das expropriações, dos assaltos, dos sequestros, das execuções, etc.

Carlos Marighella, Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano (página 57)
Seu Jorge como Marighela, tentativa de transformar a repressão ao terrorismo em racismo

Sem compromisso com o valor artístico da obra o filme é uma sucessão de clichês, com personagens planos. Enquanto todos os atos do protagonistas são justificados em nome de um ideal, o antagonista é um policial completamente frio, racista e violento, que não se intimida ao submeter sua vítima a intermináveis sessões de tortura. O filme é uma obra para reforçar no imaginário popular e dos militantes o mito fundador da luta contra a ditadura militar, alicerce unificador do pensamento da esquerda nacional.

A tentativa de reescrever a história e torcer os acontecimentos para que se adequem a cartilha dos progressistas levou Wagner Moura a traçar um paralelo entre a morte de Marighella e da vereadora Marielle Franco. Como se ambos atuassem em uma mesma esfera, uma representante legítima de um setor da sociedade e um terrorista confesso. Para mim o comparativo é uma ofensa a memoria de Marielle que, apesar da ideologia, foi eleita pelo voto popular e atuava dentro da legalidade.

História torna-se ainda mais inacreditável quando em entrevista o diretor da película insinua que a vereadora foi executada por agentes do governo, de forma semelhante ao terrorista. Como se as milícias do Rio de Janeiro fossem, de alguma forma, organizadas, mantidas ou lideradas por estruturas oficiais do governo. Mentira sobre mentira, o diretor e os atores do filme denigrem a imagem do país, entre palavras de ordem, entrevistas e manifestações constrangedoras.

É muito provável que o filme seja um fracasso retumbante nas bilheterias nacionais, e para seus produtores isso pouco importa. No Brasil, onde a cultura está dominada pelo viés esquerdista, a produção pode ter alguma repercussão em festivais e na crítica, afinal os devotos da lacração estão sempre de plantão. Mas o grande triunfo da obra para seus criadores será sua inclusão na cinemateca de referência, com exibição por anos em universidades, sindicatos e grupos de estudos de forma a tornar-se mais uma peça na narrativa para a consolidação e unidade da esquerda brasileira.

Ao menos um consolo, a crítica alemã conseguiu captar a panfletagem do filme, fracasso no festival de Berlim.

Confira abaixo a análise do filme de Wagner Moura realizada pelos principais jornais alemães:

Der Tagesspiegel – Carlos Marighella, o bom terrorista, 15/02/2019

A luta revolucionária, como conceito, sofreu muito nos últimos anos. Não só por causa do colapso do império soviético, antes disso o comunismo já havia dado cabo de todos os revolucionários. As ilhas da resistência ficaram cada vez menores: Cuba, Vietnã. No fim, alguns países isolados do mundo árabe. […]

Só na América Latina e – depois da eleição  de Jair Bolsonaro para presidente – em especial no Brasil, a crença na pertinência da luta armada parece intocada. Um nome sempre a simbolizou: Carlos Marighella, precursor intelectual do conceito de guerrilha urbana. […]

O herói de [Wagner] Moura é uma figura trágica. Por mais convincente que ele pareça ser no seu sentimento de injustiça – e a junta militar que tomou o poder em 1964 lhe dá motivos suficientes para isso – nenhum caminho conduz da violência para a benevolência das massas. A não ser que se esteja morto e transformado em lenda. E é exatamente essa mitificação que o filme Marighella pretende. […]

Moura potencializa a imagem de outsider nobre com o fato de seu protagonista ser o único negro do elenco, e isso apesar de Carlos Marighella, com suas raízes indígenas e africanas, não exatamente se diferenciar de seus compatriotas pela cor da pele. Ele era um mestiço, como 38% dos brasileiros. Apresentá-lo como negro – e transformá-lo em alvo com uma frase como “matar um negro significa matar um vermelho” – é sair do conflito político e transformá-lo num conflito racista. E de uma maneira que todos assim o percebem.
 

RBB – Epopeia cansativa, 16/02/2019

“Não somos terroristas”, grita Marighella aos reféns de um assalto a banco. “Somos revolucionários!” Declarações como essa há um pouco demais no filme. O herói tende a monólogos impulsivos e discussões que, apesar da determinação com que são feitas, soam estranhamente sem vida. Dúvida e ambiguidades não estão previstas em Marighella. Isso vale também, é claro, para o protagonista e seus aliados – e sobretudo para o grande antagonista, o investigador Lúcio.

TAZ – A guerrilha sempre tem razão, 15/02/2019

Wagner Moura quer, inconfundivelmente, criar um monumento para Marighella. E Marighella certamente foi uma personalidade carismática. Só que a carência de domínio e um distanciamento em relação a material histórico e pessoa levaram a uma epopeia. Este filme não conhece contradições, por exemplo não tematiza as teorias imperialistas e capitalistas unidimensionais da esquerda de então. Ele prefere sobretudo desabonar a direita.

O sistema de segurança brasileiro de então, de fato em parte fascista, é extensivamente exibido na figura do agente assassino Lúcio, e a reconstrução de cenas de tortura ultrapassa os limites do cinematicamente suportável. A violência institucional obtusa e de fato existente não precisa ser exibida de forma tão naturalista e duradoura como foi feito neste filme.

A estética “Marighella” de Wagner Moura é assim involuntariamente reveladora. Ela revela sobretudo um corte significativo na mentalidade do populismo de esquerda na América Latina e como este, hoje, ajeita a história a seu gosto.

Penetrante e grotesca é a representação da influência do governo americano nos acontecimentos na América Latina. Até hoje ela serve ao populismo de esquerda local como desculpa para o próprio fracasso.

3 COMENTÁRIOS

  1. perfeito o texto, a esquerda pirou de vez e tá mostrando cada vez o lado psicopata deles… no fim feminista, marxista, movimento negro e outros movimentos são todos apoiadores de terroristas, que fique bem registrado.

  2. kkkkkkkkkkkk
    tem que estar anestesiado pra ler e engolir tudo isso.
    Ah, espera, agora que li que se trata da “primeira revista eletronica para policiais militares”
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    • Será que anestesiado é quem vê a realidade e consegue inferir uma conclusão lógica, ou o apaixonado que defende seus líderes mesmo que sejam marginais condenados pela justiça?
      Como não há argumentos a resposta precisa vir acompanhada da risadinha nervosa que tenta mostrar superioridade.

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